21 de Dezembro de 2008

"Provavelmente Deus não existe"

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

http://dn.sapo.pt/2008/12/20/opiniao/provavelmente_deus_existe.html

É possível que já em Janeiro, nas ruas de Londres, as pessoas se deparem com cartazes no exterior dos autocarros com estes dizeres: "There's probably no God. Now stop worring and enjoy your life" (Provavelmente Deus não existe. Então, deixe de preocupar-se e desfrute a vida).

Trata-se de uma campanha publicitária a favor do ateísmo, promovida pela Associação Humanista Britânica e apoiada pelo célebre biólogo darwinista R. Dawkins, professor da Universidade de Oxford, ateu militante e, segundo muitos, fundamentalista.

A campanha foi um êxito, pois rapidamente conseguiu fundos - dezenas de milhares de euros - mais que suficientes para pô-la em marcha. Segundo a jornalista Ariane Sherine, que a tinha sugerido em Junho, "fazer uma campanha em autocarros com uma mensagem tranquilizadora sobre o ateísmo seria uma boa forma de contrabalançar as mensagens de certas organizações religiosas que ameaçam os não cristãos com o inferno".

Para Dawkins, "a religião está acostumada a ter tudo grátis - benefícios fiscais, respeito imerecido e o direito a não ser ofendida, o direito a lavar o cérebro das crianças". Assim, "esta campanha de slogans alternativos nos autocarros de Londres obrigará as pessoas a pensar. Ora, pensar é uma maldição para a religião".

Logo que apareceu o anúncio da campanha, fui confrontado por um jornalista da TSF: se a achava provocatória. Respondi que até a achava interessante. De facto, era isso mesmo: obrigaria as pessoas a pensar nas questões essenciais, e Deus é uma dessas questões decisivas.

Constatei, mais tarde, que essa foi também a posição de líderes religiosos britânicos, que responderam favoravelmente à iniciativa. Aliás, qualquer um tem o direito de promover as suas ideias através de meios apropriados. A Igreja Metodista agradeceu inclusivamente a Dawkins pelo facto de encorajar um "contínuo interesse por Deus". A rev. Jenny Ellis disse: "Esta campanha será uma boa coisa, se levar as pessoas a comprometer-se com as questões mais profundas da vida." E acrescentou: "O cristianismo é para pessoas que não têm medo de pensar sobre a vida e o sentido."

É significativo aquele "provavelmente". Dawkins não sabe que Deus não existe e, por isso, escreve: "Provavelmente." A existência de Deus não é objecto de saber de ciência, à maneira das matemáticas ou das ciências verificáveis experimentalmente. Nisso, Kant viu bem: ninguém pode gloriar-se de saber que Deus existe e que haverá uma vida futura; se alguém o souber, "esse é o homem que há muito procuro, porque todo o saber é comunicável e eu poderia participar nele".

Afinal, também há razões para não crer, mas, quando se pensa na contingência do mundo, no dinamismo da esperança em conexão com a moral e na exigência de sentido último, não se pode negar que é razoável acreditar no Deus pessoal, criador e salvador, que dá sentido final a todas as coisas. Numa e noutra posição - crente e não crente -, entra sempre também algo de opcional.

Mas, nos cartazes, o mais impressionante é a segunda parte: "Deixe de preocupar-se e desfrute a vida." É claro que o que está subjacente a esta conclusão é a ideia de um Deus invejoso da vida e da alegria dos homens e das mulheres.

Se a primeira parte obriga os crentes a pensar, retirando da fé tudo o que de ridículo - pense-se em todas as superstições - lhe tem andado colado, a segunda tem de levá-los a "evangelizar" Deus. É preciso, de facto, reconhecer que houve e há muitos a quem "Deus" tolheu a vida, de tal modo que teria sido preferível nunca terem ouvido falar no seu nome - pense-se no horror do inferno, nas guerras e ódios em seu nome, no envenenamento da sexualidade, na estreiteza e humilhação a que ficaram sujeitos.

Agora que está aí o Natal, é ocasião para meditar no Deus que manifesta a sua benevolência e magnanimidade criadoras no rosto de uma criança. Jesus não veio senão revelar que Deus é amor, favorável a todos os homens e mulheres e querendo a sua realização plena. Perante um "deus" que os humilhasse e escravizasse, só haveria uma atitude digna: ser ateu. |

Carta aberta à Europa

A actual geração política continua a acreditar num modelo obsoleto de organização social assente em poderes centrais dominantes.

Por: João Wengorovius Meneses
Fonte: Diário Económico

Voltaire acreditava em elites esclarecidas cujo papel era guiar e iluminar o povo. Os líderes políticos europeus também e o Tratado de Lisboa é a prova mais recente. Ele resulta do modelo dominante nos últimos duzentos anos, de uma sociedade dirigida por um poder central burocrático e distante.

É verdade que o Tratado de Lisboa ajudará a ultrapassar uma crise institucional que se havia instalado, mas dificilmente contribuirá para aproximar e inspirar os cidadãos europeus, para a resolução da crise actual das instituições democráticas. Por saber isso é que a actual “elite iluminada” teme o referendo. E quem tem medo recua.

No fundo, a actual geração política continua a acreditar num modelo obsoleto de organização social assente em poderes centrais dominantes. E não é só o poder político que está em causa. O poder militar dos grandes exércitos sucumbe às formas modernas de guerrilha e resistência, as grandes empresas estão cada vez mais vulneráveis a inovações ágeis e fragmentadas, e os media perderam influência para formas descentralizadas de disseminação de informação e debate.

Vivemos numa sociedade de tal modo ligada a uma escala global, que até as percepções de espaço e de tempo clássicas se estão a alterar. Hoje, como escreveu Marx, «tudo o que é sólido se dissolve no ar». Em todas as áreas da vida, o futuro deixou de depender de poderes massificados e centralizados e passou a depender da inovação, do conhecimento, das redes, de uma capacidade de resposta e adaptação permanentes.

A Humanidade está na iminência de uma revolução mais profunda, mais rápida e mais dispersa do que todas as anteriores. Aliás, a próxima revolução não será local nem sequer de natureza política. Será global e assente nas novas formas de participação e solidariedade.

Vejamos três exemplos de redes de solidariedade globais.

O site “www.nabuur.com” permite a qualquer cidadão do mundo participar voluntariamente no desenvolvimento de comunidades pobres. Os voluntários são organizados em grupos com o objectivo de dar resposta a uma das necessidades identificadas pela “sua” comunidade. Os recursos envolvidos são apenas criatividade, competências e algum tempo (na internet). Uma empresa portuguesa que deseje mobilizar um grupo de trabalhadores para ajudar uma vila pobre tem neste ‘site’ uma excelente oportunidade.

Em “www.kiva.org” qualquer cidadão pode emprestar 25 dólares a um empreendedor pobre que precise de capital para o seu negócio. Trata-se de democratizar a filantropia através da internet e do microcrédito. Quando o empreendedor restitui a totalidade do empréstimo, é possível receber o dinheiro de volta. Tudo através do cartão de crédito.

Por último, o ‘site’ “www.takingitglobal.org” informa e inspira os jovens, no sentido de se envolverem na resolução dos problemas globais e das suas comunidades locais. O ‘site’ tem mais de 174.000 aderentes, provenientes de 258 países.

Enquanto os líderes europeus ignorarem as novas possibilidades de mudança e transformação social, será difícil ultrapassarmos este período de sociedades estagnadas.

A Europa precisa de comunidades criativas, participativas e solidárias se deseja alcançar os níveis de produtividade alemães, os níveis de emprego dinamarqueses, os níveis suecos de igualdade, o cosmopolitismo britânico, os níveis noruegueses de educação, os níveis finlandeses de penetração das TIC e o nível de crescimento económico irlandês.

Se há um poema de Natal para os líderes europeus, é o de Alexandre O’Neill: «Quem? O infinito? / Diz-lhe que entre. / Faz bem ao infinito / estar entre gente.» Ou a Europa sai à rua e se “liga” ou definha.

Mandelstam escreveu que «a nossa vida é um conto sem herói». Ontem, celebrou-se o nascimento de Jesus. Transformar as caóticas energias das mudanças políticas, sociais e económicas em novas formas de significado e beleza, de liberdade e solidariedade é o dever da Europa e o nosso dever colectivo. Porque nem a Europa nem a nossa vida podem ser histórias sem herói.

Fonte: João Wengorovius Meneses, Diário Económico, em 26.Dez.2007

19 de Dezembro de 2008

A miséria do universo espelhada num centro de fotocópias

Eu já tinha a certeza que há três características do ser humano que não têm limites (a pretensão, a estupidez, e a ignorância). Hoje confirmei a existência de uma outra: a incompetência. Aliás, confirmei não é a palavra, dado que em dezanove anos de vida certamente já tive muitos contactos com pessoas incompetentes, mas o que sucedeu hoje irritou-me particularmente.

Tudo porque no cerne da questão está o facto de as pessoas não se preocuparem minimamente umas com as outras e apenas quererem explorar cada um dos seus próximos ao máximo. Tudo porque a avareza do ser humano se sobrepõe a qualquer tipo de valor, como o respeito pelos outros (nomeadamente por aqueles que, no fundo, o sustentam, ao garantir-lhe trabalho), a honestidade ou simplesmente a competência, o desempenho correcto e eficiente das suas funções.

De facto, se calhar sou eu que vejo as coisas de maneira errada, que sou demasiado exigente com um ser tão imperfeito e cheio de falhas como o ser humano, ou que exijo de mais da sociedade como um todo e de cada um dos seus indivíduos. Se calhar sou de outro planeta e vim aqui parar por engano. Porque há coisas que não consigo realmente compreender e que me deixam bastante escandalizada. Por falar em escandalizada, nestes momentos em que as pessoas evidenciam tamanha incompetência sem qualquer tipo de vergonha ou arrependimento e ainda continuam a tentar tirar proveito da situação, ultrapassando todos os limites de uma atitude razoável, a minha vontade é de dizer estas verdades que aqui expresso às pessoas em questão, mas não o faço por uma questão de educação(???) e de outro tipo de coisas, que nem eu sei bem quais são ou que valem. Acabo por sair prejudicada devido à estupidez e incompetência alheias, e ainda acho que não devo dizer o que tem (ou deveria ter) que ser dito.

Disto parto para uma série de profundas reflexões, que me levam, invariavelmente, à desilusão mais dolorosa e completa com a humanidade e com a sociedade. Apercebo-me de repente, pela minha experiência real, que não há qualquer futuro enquanto "as coisas" se continuarem a processar desta maneira. E enquanto ninguém for capaz de resistir, de dizer não, e de mostrar o caminho. Isto é válido tanto para um serviço de fotocópias como para um Governo ou para qualquer outra coisa. E é assim, a miséria do universo.

17 de Dezembro de 2008

Simples apelo anti-Monárquico

Apelo anti-Monárquico porque apenas acho que ninguém merece ser Rei só porque o pai era Rei, e o avó também era Rei. Podem-me dizer que um Rei é o garante da estabilidade e da unidade nacional, que um Rei está melhor preparado para governar porque é preparado para isso desde pequenino, e bla bla bla que deixo para explicações pormenorizadas no futuro.

Sou contra a Monarquia porque é injusta, porque perpetua a injustiça, inscreve-nos a todos num sistema de castas em que uns nascem Condes e outros nascem plebeus. Dir-me-ão se não é isso que acontece actualmente com o capitalismo...e eu respondo: exactamente...e é por isso que sou Socialista.

Toda a autoridade deve ser questionada, e para mim o grande erro da democracia é ser pequena demais e pouco ampla. É não ser verdadeiramente participativa, nem verdadeiramente representativa ela é...
Entre uma nomeação por parte do Capital e uma nomeação por parte de um titulo que se tem à nascença, venha o Diabo e escolha...

Pergunto apenas: o que é que tem um Rei que uma outra qualquer pessoa não pode ter?nascem nus e hão-de morrer deitados...

15 de Dezembro de 2008

Jornalistas espanhóis julgados por injúria ao Rei

in www.dn.pt

Tribunal exige multas de 10 950 euros para os responsáveis

O tribunal espanhol Audiencia Nacional, em Madrid, vai julgar esta quarta-feira os autores da fotomontagem publicada nos jornais Gara e Deia, em Outubro de 2006, por considerar que a imagem se trata de uma injúria grave à família real.

A fotomontagem tenta retratar o Rei Juan Carlos junto de um urso morto, numa alusão à caçada que fez na Rússia. A imagem que abre o jornal basco Deia mostra uma caricatura recheada de humor, mas que não agradou a Pedro Rubira, fiscal da Audiencia Nacional. Este magistrado exige multas na ordem dos 10 950 euros para os autores, José Antonio Rodríguez González, Javier Luis Ripa Jiménez e Nicolás Juan Lococo Cobo, por injuria.

Segundo as autoridades russas, o urso, de nome Mitrofán, capturado pelo Rei, terá sido embebedado com vodka para que pudesse ficar ao alcance do monarca mais facilmente. Facto que não escapou aos autores da caricatura... o urso aparece morto em cima de uma pipa, perante o olhar rejubilante do Rei, com a seguinte legenda "Vinículas Cazalla, para se sentir como um rei."

Além de considerar o acto uma injúria ao Rei, o fiscal acrescenta, segundo o El Mundo, que os jornalistas responsáveis pelo artigo aproveitaram para chamar alcoólico ao monarca. Pedro Rubira afirma que Lococo Cobo faz uma crítica à dita caçada, onde se destacam expressões "humilhantes contra a dignidade e honra do Chefe do Estado, manifestamente supérfluas e desnecessárias ao exercício da liberdade de expressão".

Esta brincadeira real já havia sido arquivada em Abril, mas o tribunal obrigou, em Junho, a sua reabertura. Em 2003, o mesmo jornal foi acusado de injúrias à Coroa tudo por causa de um artigo dos jornalistas Josetxu Rodríguez e Javier Ripa (o mesmo que participou na fotomontagem do Rei) que dava conta do casamento de Felipe com a jornalista Letizia, com o título "Felipe, sabemos o que fizeste no Verão passado".

A publicação basca existe desde 2002 e tem feito paródias com várias personalidades da sociedade espanhola. Mas quando toca à Coroa... a conversa é séria.

A família real é um fruto bastante apetecido também pela revista El Jueves, sediada em Barcelona. Em 2007 a revista publicou um desenho com dos príncipes das Astúrias com o título "2500 euros por filho", que criticava a medida natalista adoptada pelo Governo, algo que o tribunal considerou um "acto sexual explícito".

14 de Dezembro de 2008

Do they know it's Christmas?



It's Christmas time
There's no need to be afraid
At Christmas time, we let in light and we banish shade
And in our world of plenty we can spread a smile of joy
Throw your arms around the world at Christmas time

But say a prayer

Pray for the other ones
At Christmastime it's hard, but when you're having fun
There's a world outside your window
And it's a world of dread and fear
Where the only water flowing is the bitter sting of tears
And the Christmas bells that ring there are the clanging
chimes of doom
Well tonight thank God it's them instead of you

And there won't be snow in Africa this Christmastime
The greatest gift they'll get this year is life
(Oooh) Where nothing ever grows
No rain nor rivers flow
Do they know it's Christmastime at all?

(Here's to you) raise a glass for everyone
(Here's to them) underneath that burning sun
Do they know it's Christmas time at all?

Feed the world
Feed the world

Feed the world

Let them know it's Christmastime

Feed the world
Let them know it's Christmastime again



(Bob Geldof & Midge Ure)

12 de Dezembro de 2008

Sobre a Economia

Sem dúvida que não me sinto com conhecimento suficiente para criticar certas concepções acerca da Economia, e que nos últimos dias tenho visto a ser defendidas por uns e veementemente criticadas por outros.

Uma coisa eu penso que sei: que o ser humano é imprevisível, é capaz de se superar a si próprio umas vezes, outras vezes é irracional ao ponto de cometer as maiores barbáries e crimes contra o seu semelhante. Se umas vezes é capaz de gestos de partilha fraterna e saudável, outras vezes o interesse próprio e o egoísmo sobrepõe-se a tudo o resto. Sendo o ser humano um ser imprevisível, é justo dizer que não vive apenas por instintos, nem reage apenas a incentivos, e vemos exemplos sempre que olhamos para aqueles que dão parte do seu tempo a causas como a ajuda aos sem-abrigo das nossas cidades, aos médicos ou enfermeiros que são os primeiros a chegar a qualquer zona de catástrofe ou guerra, sem levar máquina de calcular, sem fazer antes uma análise de custo benefício, sem pensar em cruzar rectas com vista a maximizar lucros.

É redutora uma visão da Economia como sendo uma ciência exacta, qualquer pressuposto da Economia é posto à prova sempre que nasce uma nova criança, uma nova esperança ou um novo ideal, porque há coisas que não estão sujeitas a regras restritas do comportamento humano, porque o comportamento humano é demasiado imprevisível (e é essa a sua beleza) para ser posto em tabelas, para ser explicado por gráficos.

Toda a matemática poderá ajudar a raciocinar sobre temas, sobre a afectação de recursos, sobre as escolhas das pessoas, dos agentes económicos. Mas se a Economia não se tornar mais que isso, arrisca-se a tornar-se apenas um baú de teorias gastas sem aplicação prática.

A Economia tem de se basear primeiro no pensamento humano. O ser humano não é uma máquina que responde apenas a estímulos de impulsos eléctricos e a fluxos hormonais. O ser humano inventa e cria todos os dias, e se os estudantes de Economia (onde me incluo) não se aperceberem disso tornam-se algo como engenheiros mecânicos, e quando o "carro" não responder como devia às leis da física e inventar andar p'ra trás quando o queriam a andar p'ra frente, todos ficarão admirados...

E não haverá melhor maneira de aprender sobre o pensamento do que aprender pensando...

8 de Dezembro de 2008

Um novo paradigma...

Aqui temos um "brilhante" artigo de VPV, e no fim perceberão porque o brilhante está entre aspas...

"Um novo paradigma económico?
05.12.2008, Vasco Pulido Valente

A crise financeira, a recessão mundial e a reacção imediata de alguns governos do Ocidente provocaram o anúncio do fim do capitalismo, da inevitável emergência de um
“novo paradigma económico” e, estranhamente, de comparações com a crise de 1929. Convém, primeiro, dispor destes disparates, para tentar perceber o resto. O capitalismo, como sistema, continua bem e agradece o cuidado. Meia dúzia de nacionalizações (como, aliás, sempre houve) e a chamada “recapitalização” dos bancos não fazem um “novo paradigma”. E a crise de hoje nada tem a ver com a crise de 1929, quando só existiam quatro países, por assim dizer, “industrializados” (a Inglaterra, a Alemanha, a América e a Bélgica) e quando a França, a Itália e o Japão eram ainda sociedades “semi-
-industrializadas”.
Mas claro que as teorias básicas do que se convencionou chamar “neoliberalismo” aparentemente faliram. Cinco professores de Economia, por exemplo, publicaram um artigo neste jornal para declarar que a crise é também “um colapso” da teoria e afirmar, como se fosse uma descoberta, que “o económico não é uma esfera autonomizável do institucional, do político, do social, do psicológico” e até do “histórico”. Infelizmente, esses cinco missionários não percebem, ou não confessam, que a essência do problema não está nesta ou naquela teoria; está no facto, para eles sem dúvida desagradável, de a economia não ser, por nenhum critério, uma “ciência”. Se o fosse, não haveria agora crise (ou haveria uma crise com um remédio prescrito e infalível) e, como Keynes, num momento místico profetizou, talvez mesmo já não houvesse “subdesenvolvimento” e pobreza.

Os cinco (João Ferreira do Amaral e companheiros) pensam, com imensa virtude, que o “neoliberalismo” é “profundamente insensível à realidade” e que vive de “abstracções” sem prova empírica e “deduções lógico-
-matemáticas”. Não lhes passa pela cabeça que toda a economia é profundamente insensível à realidade e vive de abstracções sem prova empírica e deduções lógico-matemáticas. De que vivem eles próprios? Propõem por acaso um modelo que não “autonomize o institucional, o político, o social, o psicológico”? Não propõem. O “novo paradigma” de que por aí se fala fica invariavelmente por uma crítica furibunda e genérica ao “neoliberalismo”. E porquê? Porque o institucional, o político, o social e o psicológico” não são quantificáveis. Não custa constatar a sua ausência na teoria, como imensa gente há imenso tempo constatou. O resto é que é difícil."


- Decidi por aqui este artigo de VPV, porque no meu entender, de profundamente ignorante, toca a estupidez...e eu que nem gosto de chamar estúpido a ninguém...
Como nos diz João Rodrigues no Ladrões de Bicicletas, este artigo mostra uma enorme ignorância acerca do trabalho daqueles que ao longo dos últimos anos têm pensado a economia de outra forma (como os 5 do artigo do Público que VPV nos fala, que já postei aqui no blog).

Ainda voltamos à questão do que é ou não ciência, quando o próprio Einstein comparava o cientista com um artista, porque até ciências como a Física são dependentes de subjectividades. Quem lê este artigo fica a pensar que os cientistas naturais são pessoas infalíveis, e que não existem mudanças de paradigma nas ciências naturais. Pelo menos eu aprendi no 11º ano que um tal Khun falava em períodos conturbados das ciências em que haviam mudanças de paradigma.

O que pensar então? Este artigo deixa-me com mais vontade de acreditar numa nova concepção da Ciência Económica...

4 de Dezembro de 2008

A ciência económica vai nua?

João Ferreira do Amaral
Manuel Branco
Sandro Mendonça
Carlos Pimenta
José Reis

Os tempos de crise tornaram-se tempos de acção inovadora, inesperada, imprevista. Por todo o mundo tem-se observado um movimento por parte dos Governos que tentam estabilizar a situação e revertê-la. Predominam políticas conjunturais, mas, caso singular à escala global, assiste--se à tomada de iniciativas coordenadas para consertar uma arquitectura financeira internacional demasiado permeável a falhanços sistémicos.

Começa, por isso mesmo, a ser altura de reflectir sobre as lições que a própria teoria económica deve retirar desta experiência, a qual, infelizmente, está ainda longe de ter terminado. A teoria económica dominante é profundamente insensível à realidade. Constitui, em geral, uma abstracção desatenta e trata os acontecimentos difíceis como um problema que não é dela. Na melhor das hipóteses, esforça-se por demonstrar, perante a turbulência e a crise, que não se passa nada de anormal e que os problemas se reduzem a erros humanos ou pormenores transitórios, passageiros, sempre devidamente previstos.

É das escolas de Economia e Gestão de todo mundo, sobretudo dos Estados Unidos, que tem saído uma boa parte dos operadores dos mercados financeiros e gestores de topo que lentamente acumularam decisões insustentáveis culminando na actual crise. Esta crise é, também por isso, um colapso teórico, uma falência de um modo de ver. A má teoria é, evidentemente, um elemento central da crise.

A realidade é o verdadeiro teste, por vezes doloroso, das ideias. E, neste momento, é o rigor e a relevância da realidade que deve falar mais alto do que as premissas e os modelos ainda em vigor nos manuais de Economia. A teoria económica convencional pressupõe, mais do que demonstra, que os agentes optimizam e os mercados harmonizam. A ideia de "mão invisível" é uma expressão usada uma só vez por Adam Smith, o filósofo celebrado como o pai da ciência económica, nas muitas páginas de A Riqueza das Nações. No entanto, Smith começa o seu livro por sublinhar a importância crucial da organização e do conhecimento, algo que os manuais modernos preferem ignorar. E importa lembrar que, para além deste, ele escreveu outro grande livro: A Teoria dos Sentimentos Morais. Muito boa gente acha que só o primeiro é ciência, é economia.

Os livros-texto que hoje dominam falam de racionalidade e de equilíbrio, abstracções insensatas que a prova empírica contesta com violência. Teorias deficientes têm, pois, ocupado o lugar das mais prudentes, das mais capazes de perceber que o económico não é uma esfera autonomizável do institucional, do político, do social, do psicológico. No passado era mais fácil encontrar manuais mais pluralistas e sensíveis às estruturas institucionais da realidade, mais baseados em lições retiradas de padrões históricos e não somente em deduções lógico-matemáticas. O ensino dominante não tem municiado os estudantes para conhecerem o mundo real e para o interpretarem, para saberem que comportamentos emergem, que sistemas institucionais se confrontam, que valores estão em crise e quais os que se reforçam.

Não é, portanto, ousado supor que no ensino da Economia e da Gestão tudo ainda continua como dantes, alheio a uma crise talvez descrita como mera mas rara anomalia, numa atitude fechada e defensiva face aos desafios do pensamento crítico. No entanto, não podemos esquecer que os operacionais dos mercados têm sido formados neste contexto intelectual. Ou seja, dificilmente o ensino da Economia e da Gestão não estará implicado nas causas da crise.

Com estes acontecimentos, as teorias que sabem acolher a incerteza, a dinâmica da evolução estrutural e, sobretudo, a noção de que a economia funciona de um modo complexo, da qual fazem parte os mercados mas também numerosas outras instituições, poderão assumir maior protagonismo. Ganha peso a convicção de que os comportamentos económicos, em vez de serem o resultado óbvio de respostas a incentivos, são sempre comportamentos limitados, provisoriamente ajustados às circunstâncias e aos contextos. Quer dizer, são comportamentos humanos.

Há, portanto, necessidade de responsabilidade e realismo crítico no ensino das Ciências Económicas e Empresariais, esses campos em evolução e sempre politicamente carregados. Algumas editoras têm, aliás, procurado reflectir a procura por maior pluralismo no ensino da Economia. Referimo-nos, por exemplo, às abordagens neo/pós-keynesianas, evolucionistas e institucionalistas - um portfólio de perspectivas para lidar com um mundo económico complexo, multidimensional e persistentemente surpreendente. É urgente que a academia as tire da sombra e lhes atribua o devido destaque.

João Ferreira do Amaral é professor do ISEG; Manuel Branco é professor da Universidade de Évora; Sandro Mendonça é professor do ISCTE; Carlos Pimenta é professor da Universidade do Porto e José Reis é professor da Universidade de Coimbra.

3 de Dezembro de 2008

Eu não sou cúmplice

2008 tem sido um ano negro da violência doméstica em Portugal. Homicídios e tentativas de homicídio ultrapassam os números dos últimos 5 anos. Apesar de toda a consciencialização social, os dados apontam para um agravamento do problema. Urge, pois, enfrentá-lo com respostas mais eficazes.

Neste sentido, a UMAR lança agora uma campanha dirigida aos homens para estes se solidarizarem com as vítimas de violência, retirarem o apoio aos agressores e se demarcarem publicamente dos seus actos.

A campanha “Eu Não Sou Cúmplice” tem o objectivo de mobilizar as energias masculinas para esta batalha dos direitos humanos que está longe de estar ganha.

a petição está em:
http://www.petitiononline.com/UMAR/petition.html


Não sejas cúmplice deste realidade...

Natal

www.palombellarossa.blogspot.com

Cada vez é mais cedo que começam a ser instaladas nas nossas cidades as iluminações de Natal. Dizem-me que é a concorrência entre as empresas de luminotécnica que o impõe. Talvez seja. Mas esta ânsia por que o Natal chegue depressa não me é indiferente. São os interesses comerciais a ditar leis, certamente. É o estímulo antecipado do apetite consumista que é posto a funcionar, claro. Mas assalta-me, por um momento, a ilusão de que é também uma consciência difusa de que nos falta Natal nas nossas vidas quotidianas. E que, talvez o brilho das luzes seja a antecipação querida da Luz que precisamos para dar sentido aos nossos caminhos esforçados.

Não há orçamentos cristãos, como não há políticas externas cristãs ou propinas cristãs. O envolvimento dos cristãos na política não deve ser orientado para a reserva de uma coutada de poder cristão contra as outras propostas mas sim pela interpelação à pluralidade de soluções com base nos valores do Evangelho. É exigível aos cristãos, por isso, que saibam ser firmes nos princípios e tolerantes nas mediações. O debate político não é um fardo que temos que suportar mas sim um teste à nossa capacidade de sermos testemunhos da esperança nos mais diferentes domínios da vida colectiva. Sem a tentação de condenar os diferentes de nós ou de nos refugiarmos no guetto seguro da intocabilidade.

Em que termos é que se põe, nas nossas escolas, nas nossas famílias,ou mesmo nas nossas comunidades cristãs, o problema do horizonte profissional dos mais novos? Creio que, no essencial, continuamos a navegar num mar de ilusões, em que a riqueza individual, o bem-estar e o prestígio são os valores que se anunciam, em fundo, como a melhor promessa para quem inicia um trajecto de trabalho. Ora, talvez os cristãos devessem ter a coragem de pôr em causa a continuação desse projecto de vida como dominante. Talvez se devesse exigir aos cristãos que estivessem na primeira linha do anúncio de que, neste mundo, as profissões são cada vez mais, um campo em que se testa a solidariedade. E que, para levar esse desafio a sério, a formação dos novos profissionais os deve convocar ao serviço, à humildade de aprender sempre mais e à desinstalação material. Quando os cristãos forem capazes de desempenhar este papel com firmeza, talvez a sociedade se sinta confrontada com um sério projecto de conversão.

José Manuel Pureza, 15/11/2003
http://palombellarossa.blogspot.com/2003_11_01_archive.html

2 de Dezembro de 2008

Convergência à Esquerda

Observam-se cada vez mais sinais inovadores na esquerda do nosso país. Ainda são feitas críticas dentro dos diferentes partidos, é ainda visível alguma resistência por parte de alguns sectores. Mas como dizia à pouco Manuel Alegre, as pessoas falam umas com as outras, vê-se sem dúvida, algo de novo.

Quanto mais não seja, fala-se nisso, a simples questão, a simples hipótese, mesmo que muito remota, mostra que algo novo vai surgindo.
A convergência era importante, convergência pelas causas comuns, pelos valores comuns.

É importante que se fale, que se discuta, que se aprenda com todos os partidos e forças da esquerda.

É importante para a nossa democracia que haja uma força de esquerda forte que se volte para as pessoas e para os seus problemas.

Esperamos algo de novo...