12 de Setembro de 2009

A brincar, a brincar, olha que nem sei se não compensaria...

"Fica apenas o exemplo das nacionalizações, o caminho certo para destruir o país e que, só contabilizando a PT, a GALP, a EDP, o BES, o BCP e o BPI, custaria a preços de mercado qualquer coisa como 40 mil milhões de euros. Será que queremos pagar esta factura?"

Deixando de parte a questão da integridade jornalistica no tratamento desta noticia em que se dá conta de uma sondagem eleitoral, concentro-me noutra questão:

Se hipotéticamente (porque não é a realidade) algum partido que concorresse às eleições tivesse a intenção de, na condução da política economica, nacionalizar as instituições a que a noticia faz referência, será que seria mesmo um mau negócio para o estado?

É que se atendermos aos lucros de 2008:

Lucros PT 2008 - 6734 milhões €
Lucros GALP 2008 - 478 milhões €
Lucros EDP 2008 - 1212 milhões €
Lucros BES 2008 - 404 milhões €
Lucros BPI 2008 - 150 milhões €
Lucros BCP 2008 - 201 milhões €

reparamos que o investimento de 40mil milhões para lucros anuais de 9,179 mil milhões significa, na verdade, que em 4 anos e meio está recuperado o investimento.

A verdade é que este é um deslize inaceitável por parte de um jornal que tão bem cumpre a agenda liberal como o Diário Económico: colocar a questão das nacionalizações pela via do défice é fraquinho e não o que se espera de um jornal de referência para a direita.

Permito-me fazer lembrar aos jornalistas do Diário Económico que aquilo que deveriam ter dito era que o estado é mau gestor por natureza porque a afectação de recursos é menos eficiente e que a livre iniciativa e ambiente concorrencial promovem a produtividade e como consequência os baixos preços.

São essas as ideias que tanto tempo levaram a fazer caminho e a transformá-las em dogmas reproduzidos desde as salas de aula até ao telejornal generalista.

É que se por acaso tentarem construir argumentário pela questão do défice e da viabilidade económica desta operação ainda arriscam a que lhes façam uma conta de merciaria como a que foi feita em cima, ou que lhes seja perguntado sobre os preço de venda da GALP a Américo Amorim. Ou porque razão é que todos aqueles lucros não estão a financiar o defice e as políticas de educação, de saúde e de emprego, e porque é que actualmente esse financiamento se faz quase exclusivamente a partir dos impostos que, já agora, os liberais tão pouco prezam e tão baixinho os desejam, por causa da competitividade da economia nacional e tal...

9 comentários:

Carlos disse...

Então mas se é para manter os níveis de lucro actuais, para que querem nacionalizar?

Se se pretende subsidiar a restante economia com preços abaixo do nível de mercado, o mais certo é tais instituições baixarem de sobremaneira a sua eficiência e o retorno que geram.

Se quer justificar a nacionalização dessas empresas, não me parece que os lucros actuais das mesmas seja um argumento válido.

Zé Miranda disse...

Uma política de nacionalizações tem como principal objectivo uma politica pública de preços. É natural que a energia (EDP e GALP) não teriam os preços inflacionados se fossem empresas públicas, uma vez que o objectivo último dessas empresas não seria unicamente a acumulação, como acontece naturalmente com os privados.

Eu apenas analisei do ponto de vista do negócio para o estado, porque é por esse prisma (do fardo do défice para as "gerações futuras") que a noticia trata a questão. E para quem está tão preocupado com o controlo do défice tem que admitir que é mais fácil controlar o défice nos 3% com 1700milhões de euros (lucros GALP + EDP) do que sem eles, como acontecia à meia duzia de anos atrás quando essas empresas eram públicas.

Carlos disse...

Para quê? Para continuarmos a pagar na mesma uma despesa pública que representa já mais de 40% do PIB e? O que precisamos é de criar condições para termos de facto mercado concorrenciais e mercados mais livres. Num mercado verdadeiramente livre o consumidor é quem manda e não o empresário como muitas vezes se diz.

kandimba disse...

Se num mercado livre fosse o consumidor a ter o poder e não o empresário o marketing não existiria.

Carlos disse...

Antes pelo contrário. A existência do marketing só prova o poder do consumidor no mercado. Daí que as empresas afectem tantos recursos a essa faceta do seu negócio. Se o consumidor se deixa levar pelo marketing ao ponto de cometer loucuras como esgotar o planfond do cartão ou tem que pedir crédito para o consumo, isso é outra história. Que eu saiba não existe ainda nenhuma ferramenta de marketing que obrigue o consumidor alvo a comprar.

Anónimo disse...

Quando se confunde lucros com receitas totais (caso da PT, o único que verifiquei), percebo a razão para o título do bolg

Tiago Santos disse...

Caro anónimo, um erro que não faz perder o sentido do post, o de nos fazer pensar se seria assim tão mau negócio, e que mau negócio foram as privatizações...

Tiago Santos disse...

Mas caro anónimo, também não revela grande sabedoria não reparar que os restantes valores não têm sentido para serem receitas totais quando comparados com a PT como revela no seu comentário...

Tiago Santos disse...

Por último, deixo a rectificação das contas, os lucros da PT foram de 581,5 milhões (http://ww1.rtp.pt/noticias/?article=100109&visual=3&layout=10) portanto os lucros totais destes empresas são 3027 milhões, e em 13 anos o investimento estaria recuperado...continuo a achar, como o meu amigo Zé Miranda que a brincar, a brincar, ainda nos deve fazer pensar...