18 de Abril de 2010

Não é pecado, é crime

A resposta da direita católica ao escândalo da pedofilia no seio da Igreja católica tem seguido essencialmente dois eixos. Por um lado, nega-se em grande parte a extensão do problema, dizendo que os media estão a empolar o caso (o argumento da cabala, que já conhecemos tão bem dos políticos corruptos). Por outro, tenta-se desviar a atenção dos cidadãos, como se estivesse em causa a meramente a existência de abusos sexuais de menores na Igreja Católica e não o facto de a Igreja ter encoberto sistematicamente este tipo de crimes no seu seio.
Não pretendo usar este escândalo como forma de afirmar que há algo na Igreja que faz com que os padres sejam pedófilos. Não há qualquer evidência de que a percentagem de pedófilos entre os padres seja superior à media da população, pelo que qualquer discussão sobre a ligação entre este tipo de patologia e normas internas da Igreja, como o celibato, é uma perda de tempo. Mais, admito mesmo que possam ser mais frequentes os casos de abuso sexual de crianças em escolas, orfanatos e outro tipo de instituições sem qualquer ligação à Igreja.
A questão é mesmo, insisto, a de a Igreja reagir a casos de abuso sexual de menores por padres com o encobrimento dos criminosos. Como já é comum nas instituições corporativas, sejam as igrejas, os exércitos ou as comissões de praxe, a vergonha de admitir que existem criminosos no seu seio excede a consciência cívica. Quando leio a incisiva crónica de Johann Hari, que denuncia a forma como o Vaticano andou a deslocar os padres pedófilos de um lado para o outro, garantindo sempre que as vítimas nada diziam (link), vem-me à memória o caso do Padre Frederico e da forma como o Bispo do Funchal tratou de o proteger e de assegurar a sua fuga para o Brasil, mesmo depois de ter morto uma criança.
Infelizmente, portanto, nada disto é novidade. Tal como não é novidade a associação pelo Vaticano da pedofilia à homossexualidade, uma afirmação que os dados desmentem (em Portugal, por exemplo, 83% das vítimas são do sexo feminino e 95% dos agressores são do sexo masculino, dizem os dados oficiais). Assim se resolvem dois problemas de uma vez só: evita-se discutir o encobrimento de pedófilos e legitima-se a exclusão de homossexuais da ordenação como padres.
O mais triste no meio de tudo isto é ver a forma como tantos fiéis se deixam cegar pelos dogmas e se recusam a ver o óbvio. Ainda há pouco alguns devotos, à saída da igreja, diziam para a televisão que "todos somos pecadores", como se piscar o olho à(ao) vizinha(o) fosse comparável a abusar sexualmente de uma criança. Felizmente que ainda há quem pense pela sua cabeça e não se deixe levar com tanta facilidade.

4 comentários:

João Simões disse...

Em 1º lugar gostaria de dizer que não lhe fica bem rotular os Cristãos que defendem a Igreja como Cristão de direita! É abusivo e pouco verdadeiro!
Depois, ninguém na Igreja desmente ou omite os crimes cometidos!
Existe só um certo desconhecimento da sua parte em relação às leis da Igreja! Nem tudo é como lhe pintam! Tem sempre de se ouvir ou ler as duas partes para se poder fazer um juízo correcto! Nem sempre tudo o que vem nos jornais, revistas e telejornais é 100% verdadeiro!
Existe muita informação fabricada ou deturpada!!
Deixo aqui alguns exemplos:
http://padre-inquieto.blogspot.com/2010/04/outro-disparate-da-imprensa-sobre.html

http://padre-inquieto.blogspot.com/2010/04/sigilio-sacramental-e-pedofilia.html

kandimba disse...

O argumento da cabala não cola comigo, terá de me dar algo melhor que isso.
Longe vai o tempo em que o povo era analfabeto e ignorante. Nesses tempos, o padre tinha um poder enorme, o de transmitir a "verdade" aos fiéis. Hoje já temos cada vez mais pessoas que são capazes de obter informações de várias fontes e de as analisar de forma crítica, mas a Igreja parece recusar-se a perceber isso. Pelo menos é o que depreendo das palavras do cardeal que dizia que é uma "verdade" a associação entre pedofilia e homossexualidade.
Deixe-mo-nos de rodeios. O Papa soube de (pelo menos) um caso de abuso sexual de menores por um padre. Denunciou-o às autoridades mal soube do que se passava? Não. Então deve ser considerado cúmplice do crime e julgado num tribunal.
Fosse Ratzinger um cidadão comum e não o chefe máximo de uma igreja e qualquer pessoa concordaria com isto.

Anónimo disse...

Mesmo assim não é mais que um sêr humano?
Ou ser Papa faz de Ratzinger um E.T. ou um Deus com super-poderes!

kandimba disse...

Acho curiosíssimo esse argumento. A Igreja passa o tempo todo a tentar convencer-nos que o Papa tem sempre razão e que temos de seguir acriticamente os seus preceitos de moral mas quando o Papa erra (ou, pior ainda, é cúmplice de um crime), a Igreja defende-se dizendo que é apenas um ser humano.
O Papa é apenas mais um ser humano? Estamos de acordo nisso. Então porque há de estar acima da lei? Porque não há de ser julgado por cumplicidade com o crime de pedofilia? Porque não podemos saber a verdade sobre o que se passou sem que sejamos acusados de estar a atacar a religião católica?