Esta interessante notícia do Expresso confirma as minhas contas de mercearia: ter um automóvel próprio custa um salário mínimo por mês. Como qualquer estimativa, este número é contestável. Podemos argumentar, por exemplo, que se o carro for comprado a pronto (ou se for um carro mais barato) o custo é menor. Mas também podemos argumentar que a estimativa não considera os custos com estacionamento (incluindo o custo de ter uma garagem em casa, visto que o aluguer ou prestação de uma casa é mais baixo se não tiver garagem) ou os custos de manutenção. De qualquer forma, fazer os cálculos desta forma mostra-nos como ter uma viatura própria é um gasto comparável ao de ter uma habitação própria, sendo portanto um sacrifício financeiro exagerado para a maioria da população.
Desta constatação emerge a pergunta: porque é que, então, há tanta gente com dificuldades económicas que nem sequer considera em livrar-se do carro? Ou, posto de outra forma: porque é que há tanta gente que conta os cêntimos no dia-a-dia e, no entanto, é capaz de se endividar para ter um carro?
Uma boa parte destas pessoas terá carro por obrigação, pode-se argumentar. É certo que a especulação imobiliária atira uma boa parte da população para a periferia, onde os preços das habitações são mais baixos e onde o acesso a transportes públicos é fraco. Ignoremos então estes casos. Ignoremos até os casos das pessoas que têm acesso a transportes públicos mas o serviço é tão mau que poupam bastante tempo ao se deslocarem de carro, assumindo (e este é um pressuposto muito forte) que estas pessoas fizeram as contas e estão dispostas a gastar 400, 500 euros por mês para perder menos tempo em deslocações quotidianas. Vejamos então o caso daqueles que podem deslocar-se usando os transportes públicos e meios de transporte não poluentes (assentes na força das pernas) e optam por não o fazer.
Pegando num exemplo prático, o que leva um jovem precário que ganha 700 euros por mês a comprar um carro, sendo que depois de pagar as prestações do carro e da casa fica sem dinheiro para comer (ou quase)? O que torna o carro um objecto de consumo tão importante que faz com que tanta gente seja capaz de todo o tipo de sacrifícios para o obter (ou manter)?
Arrisco dizer que a explicação está na cultura da automobilidade, tão entranhada na nossa sociedade. O carro é-nos apresentado como uma manifestação da liberdade e da autonomia que ganhamos na transição para a vida adulta. Ter um carro faz, portanto, parte do processo de crescimento. Mas o carro é também uma forma de expressão da personalidade. Elementos como o design e a performance transmitem uma mensagem sobre o que somos (ou o que gostaríamos de ser) aos nossos pares. Quanto a isto, basta ver como a publicidade aos automóveis incide mais sobre a mensagem que o produto transmite que sobre o produto em si.
Em suma, o carro é um produto de consumo objecto de uma campanha de propaganda eficaz ao ponto de reduzir drasticamente a sua elasticidade-preço. O que no início era uma extravagância de ricos hoje é visto como algo tão fundamental na nossa vida como a habitação ou a alimentação. Mas a automobilidade traz sérios problemas para a vida em comunidade.
Este é um caso típico de irracionalidade do mercado. O "livre mercado" trouxe-nos cidades cheias de automóveis, com as consequências negativas que isso tem a nível de poluição, de congestionamento (logo, de tempo perdido) e de segurança. Cidades onde, em média, 1/3 do espaço disponível é gasto em infra-estruturas dedicadas ao transporte individual, em detrimento de jardins ou de espaços de convívio e lazer. Tudo para que a indústria automóvel prospere, à custa do empobrecimento da população.
Falta aqui, portanto, uma macro-racionalidade que apenas pode vir do planeamento público democrático. Urge transformar as cidades, reduzindo as distâncias das deslocações pendulares, criando sistemas de transporte público eficazes e privilegiando os modos de deslocação não poluentes (por exemplo, alargando passeios e criando ciclovias).
Esta mudança radical no modo de transporte não faz apenas sentido do ponto de vista ecológico e social (como argumenta, por exemplo, o óptimo blogue Menos um Carro). Também do ponto de vista meramente económico faz todo o sentido, visto que o custo de um passe mensal é uma fracção do custo de uma viatura própria. Este é apenas um exemplo de um caso em que vale a pena olhar além (muito além) do mercado e ver como podemos planear e construir colectivamente uma vida melhor para todos.
19 de Abril de 2010
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7 comentários:
Viva,
respondi ao teu comentário no "menos um carro" (o verdadeiro).
quanto ao teu post, concordamos no geral.
quando dizes que a automobilidade deve ser preterida em termos económicos, eu iria bem mais longe do que a contabilidade individual. um sistema de transportes públicos pode ter a mesma eficiência que um sistema baseado no automóvel privado, com custos bem menores. e não falo só de custos moentários, falo em ambientais, temporais, sociais, de saúde, etc.
quanto à primazia da posse do automóvel, estou convencido que é uma questão de status. tanto em termos micro (as pessoas gostam de ter o carro) como macro (as autarquias, o governo gostam de promover o automóvel porque parece mais moderno).
discordo na tua análise das pessoas que usam o carro por obrigação. eu não vejo "obrigação" vejo escolhas individuais livres. no centro da cidade há casas bem baratas (eu sou de lisboa, mas no porto tenho a certeza que o bairro da sé e a ribeira são mais baratos que gaia), as pessoas não moram lá porque priveligiam outras coisas. e muitas nem fazem as contas, porque o automóvel não entra na contabilidade de uma família, ele é um dado que não se discute tal como comprar pão e leite. quando se pensa na periferia vs centro compara-se rendas/empréstimo da casa, nunca se soma o custo extra do carro.
um casal amigo que mudou da periferia para uma zona cara de lisboa, ficou espantado quando percebeu que estava a poupar dinheiro!
ab
para quem não de lisboa:
digo "menos um carro" (o verdadeiro) porque a carris (stcp cá do sítio) roubou-nos o nome para criar um "movimento" com o qual não temos qualquer ligação.
Mais de 30% do preço de um automóvel médio são impostos.
Como se não bastasse, desde 2009 é muito mais caro legalizar um carro usado importado.
Mais de 60% do preço dos combustíveis são impostos.
A sua indignação podia começar por aí.
Em termos de preço para o consumidor, temos os carros e os combustíveis entre os 5 mais caros da Europa.
Quanto ao resto, concordo que seria desejável usar menos o automóvel, mas para isso temos que esperar que as transportadores (na maior parte públicas) em conjugação com o poder local nos consigam trazer um serviço de transportes de qualidade.
Mas num mercado sem concorrência, a mudança tarda sempre mais a chegar.
acabei de verificar os preços de hoje, e portugal não estava nos 5 primeiros.
se procurar as médias semestrais, mais longe do top5 estará (pode ver no eurostat por exemplo)
quanto ao peso dos impostos, nunca viu um estudo sobre o custo total do uso do automóvel,pois não? quando pago uma maça, pago tudo os custos da sua produção. associado ao automóvel há um custo enorme associado para lá do simples veículo e combustíveis (estradas, manutenção das estradas, semáforos, sinais, polícia, custos ambientais, custos de saúde, etc.)
MC,
Concordo que há um elemento de escolha individual no processo de suburbanização. Eu também optei por morar sempre no Porto e estive sempre em casas baratas. Sei que, actualmente, existem opções económicas para quem pretende viver no centro das áreas metropolitanas (embora essas opções se limitem largamente a apartamentos pequenos). As estatísticas, contudo, mostram que a descida do preço das casas (o lado positivo da crise do imobiliário) não foi suficiente para evitar a sangria populacional. Seja pelos preços (ainda!) mais baratos, seja pela maior dimensão média das habitações, seja pelo conforto (tendo em conta que as casas nos centros são normalmente antigas e trazem vários problemas), as pessoas continuam a preferir, no geral, ir viver para fora da cidade onde trabalham.
Defendo que há duas medidas que as autoridades centrais devem tomar aqui. Uma é promover a recuperação dos centros, o que implica também restringir a nova construção. Em poucos anos poderíamos ter um mercado de arrendamento a funcionar que atraísse mais jovens em início de vida para a cidade central. Outra medida, complementar da primeira, é a penalização do tráfego inter-urbano, pela criação de portagens urbanas e pela cobrança de estacionamento. Tudo isto tem de ser articulado com a melhoria dos transportes públicos, claro.
Carlos,
Face aos custos enormes da automobilidade, creio que os impostos pagos sobre os carros e a gasolina são uma pechincha. Com isto não defendo um aumento destes impostos, porque penso que há que investir seriamente em alternativas de transporte antes de penalizar mais o transporte individual, mas também não defendo a sua diminuição. Também acho que seria justo que a receita do imposto sobre combustíveis revertesse para o financiamento dos transportes públicos.
Quanto à concorrência, penso que se vir a realidade deplorável dos transportes colectivos privados verá como este é claramente um sector que deve estar sob o domínio público.
Clarificando, necessitamos de investir em melhores transportes colectivos e de penalizar o uso do transporte individual. Estes dois eixos são complementares e podem ser implementados simultaneamente.
kandimba,
concordo com todas as medidas que referes e vou mais longe. defendo uma penalização bem forte (este governo introduziu pela primeira vez uma, mas insuficiente) para proprietários que tenham fogos abandonados no centro. na holanda, após um ano de abandono, a casa pode ser ocupada legalmente.
apenas referi a escolha pessoal, porque não concordei quando restringeste a tua análise apenas a pessoas que tem uma boa rede de transportes à porta.
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