Aqui, o Bruno de Góis, na caixa de comentários do Adeus Lenine (novo blogue e que se aconselha) comparou Passos a Obama:
"Lembro-me de Passos Coelho ter sido apelidado, há um par de anos, de "Obama português"... (a palidez deste nem importa aqui). Não deixa de ser interessante ver o que de mais relevante partilha com Obama: ambos são novos rostos para o mesmo sistema. Apenas algo que muda para que TUDO fique na mesma."
Parece-me que comparar o Passos Coelho ao Obama é exagero.
Quando analisamos programas ou medidas politicas é importante que não o façamos isolando-os/as do contexto histórico em que surgem e sobretudo da relação de forças existente na sociedade. Mais importante do que cada um defende acaba por ser aquilo que cada um pretende mudar, as politicas que implementa para tal mudança e quem enfrenta (e quem junta consigo) no processo.
E aí assistimos a um Obama que afronta grande parte da opinião pública e dos grandes interesses económicos quando propõe reformas que alargam os cuidados de saúde a 30 e tal milhões de americanos. Isto num periodo em que o defice americano é dos maiores de sempre. É verdade que ele não propõe um sistema nacional de saúde universal e antes "seguro de saúde universal". Mas por mais curto que isto nos pareça em Portugal significa, no contexto da sociedade americano, um importante processo de redemocratização e de extensão da saúde a muitos milhões trabalhadores que até agora não tinham acesso - apesar de não gostar da forma como esta reforma é implementada, não se pode dizer que "tudo" fica na mesma.
O patronato e os grandes interesses não querem nenhuma reforma fiscal que os ponha a eles e ao povo americano a pagar impostos em torno de um direito. Não apenas pelos seus interesses económicos taxados mas também porque estas medidas transportam consigo algumas ideias que podem começar a fazer caminho: esta expansão dos direitos de saúde chegam a tanta gente que certamente transformarão o senso comum dominante no que toca à importancia de pagar impostos para que os direitos sociais sejam assegurados.
Já Passos Coelho é o tipo de politico que recusa a realidade quando ela não bate certo com o seu ideal de sociedade. Passos Coelho acha que o desemprego diminui se se desregulamentar ainda mais o trabalho, apesar de empiricamente se verificar que o intenso processo de precarização da força de trabalho (1,2 milhões de recibos verdes significa 1,2 milhões de trabalhadores que podem ser despedidos na hora, sem qualquer tipo de direito associado, quer sejam férias, limite de horas de trabalho, subsidio de desemprego ou de maternidade, sem que esse tempo seja contabilizado para a reforma apesar do recibo verde pagar impostos) não fez aumentar o emprego ou a competitividade, bem pelo contrário. Quando lhe perguntam, continua a afirmar que o mercado de trabalho português é "rigido", apesar dos estudos comparativos da OCDE indicarem o contrário. Assim como Socrates, é o politico que o patronato português procura para defender os seus interesses.
Se for eleito, obviamente que continuará o corte aos direitos laborais assim como as privatizações dos serviços públicos, em busca de uma competitividade económica que, no país com mais assimetrias sociais, apenas resultará na desigualdade e numa democracia muito mais frágil.
Apesar do Marketing politico e da imagem bem que os dois bem trabalham, não é possível comparar Passos a Obama.
Um é de esquerda porque dirige um processo politico de igualização nos cuidados de saúde e o outro é de direita porque transporta os valor da liberdade e da meritocracia, por exemplo na proposta de flexibilização do mercado de trabalho.
Edit: o anterior titulo desta posta "diz-me com quem te juntas e dir-te-ei qual a tua politica", feito à pressa, teve por razões óbvias de ser alterado para um menos mau.
14 de Abril de 2010
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2 comentários:
Obama de esquerda? Essa é muito, mesmo muito puxada... Cito os socialistas americanos : Obama é um neo-liberal, apesar de toda a retórica. A reforma no sistema de saúde pouco mais fez que por o Governo a pagar seguros de saúde mínimos para os mais pobres. Daqui até um sistema de saúde público vai um passo de gigante...
Na realidade, acho que comparar Obama a Passos Coelho é pertinente. São as caras do neo-liberalismo do século XXI, tal como David Cameron e Sarkozy. Falam em direitos sociais, em ambiente, mas as políticas que aplicam estáo nos antípodas dos ideiais que supostamente defendem.
Admito que é muito puxado falar de Obama enquanto um homem de esquerda.
Mas ser de esquerda (foi isso que tentei explicar na minha posta) varia muito com o contexto. Não há uma receita para se ser de esquerda. Sabes bem que não se é mais de esquerda ou mais radical por pedir o socialismo por decreto da assembleia. Quando não existe suporte social para isso, é-se tanto mais de esquerda quanto mais forças se juntam em torno de questões fraturantes. Parece-me que esta reforma da saúde americana (com a qual não concordo) trás simbolicamente em anexo outras questões - por exemplo, a disputa sobre a importancia social dos impostos, essencial para a redistribuição.
Portanto, não se pode usar o mesmo "esquerdómetro" na análise dos programas politicos. O importante é observar os processos politicos e se eles vão no sentido de alargar ou de diminuir direitos sociais e a democracia (que apenas existe com a igualização dos meios de vida).
Apesar do Passos ter um programa muito semelhante ao Obama, a verdade é que o sistema de saúde e de educação portugueses são bem melhores e promovem bem mais a justiça social que os americanos. Logo, Passos caminha num sentido oposto ao de Obama.
Apesar de concordar contigo: a reforma da saude americana é um avanço minimo. Mas relembro que aquilo são os EUA. Os historiadores dirão o que significará isto. Pode bem não passar de um episódio sem significado. Mas pode ser o inicio de qualquer coisa que abale a hegemonia do pensamento neo-liberal.
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