19 de Maio de 2010

A cegueira do costume

Paul Krugman, no seu blogue (link), assinala que o grande problema do euro é o facto de, excluída a possibilidade de desvalorização cambial, os países mais pobres da UE terem como única opção para o aumento da sua competitividade internacional a descida dos salários. Até aqui, estamos de acordo. Esta foi, aliás, a análise que ouvi há uns dias de Tariq Ali, numa excelente entrevista à Democracy Now! (link). O problema está na conclusão normativa que Krugman retira desta constatação: que os salários na periferia têm de descer 20-30% relativamente à Alemanha. Para que não sobrem dúvidas do seu comprometimento com esta posição política, Krugman escreve-a em maiúsculas.
Note-se bem a cegueira deste economista. Ele não escreveu em maiúsculas que os salários na Alemanha têm de aumentar. Também não escreveu em maiúsculas que a "livre concorrência" na UE prejudica imenso os países mais pobres, incapazes de competir com os países mais ricos. E também não escreveu que a crise do euro é uma crise de falta de solidariedade na UE. Nada disso, o que escreveu foi que os nossos salários têm de descer para sermos competitivos, caso contrário estamos perdidos.
Krugman dixit: desçamos o salário mínimo nacional para 332.5€-380€. Isso vai resolver todos os nossos problemas. Talvez até haja a possibilidade de rescuscitar Salazar, esse sabia bem como disciplinar o povo para aceitar estas difíceis mas necessárias reformas.
Mas passemos de um economista brilhante (que também diz disparates, claro) para um daqueles economistas assim-assim (para ser simpático) que aparecem nos jornais a defender a cartilha neo-liberal. Falemos de Campos e Cunha, economista que um dia se doutorou na Columbia University de Nova Iorque e depois nunca mais fez nada de jeito. Diz o ex-Ministro das Finanças relativamente ao PEC que "mesmo que atinjamos a meta do défice em 2014, não vamos consegui-lo em 2004, porque as facturas das despesas com as concessões e as parcerias público-privadas (PPP) vão começar a chegar". Conclusão normativa lógica: é preciso reduzir drasticamente a despesa pública, cortando em despesas com pessoal, prestações sociais, etc.
Mantenhamos o clientelismo e o rentismo inerentes às PPP, compensemos o aumento de custos que daí advém com mais penalizações para quem trabalha, Campos e Cunha dixit.
Triste economia esta, que se deixa tolher por dogmas.

3 comentários:

L. Rodrigues disse...

Nos comentários do arrstão surgiu a mesma leitura do blog de Krugman.
O que ele diz é de facto isso, e de facto não lhe ocorre que os salários alemães possam subir.

Mas ele não defende a descida dos salários das economias periféricas. O que ele diz que é essa descida é impossivel porque os niveis de "flexibilidade" laboral necessários não exitem em país nenhum do mundo.

Dá inclusive o exemplo da letónia que com mais de 20% de desemprego apenas conseguiu baixar os salários em pouco mais de 5%. E que para chegar aos 20-30% seria necessário um sofrimento insuportável.

No fundo o que Krugman critica é a arquitectura rigida do Euro.

kandimba disse...

Krugman é suficientemente críptico, até esfíngico, para que muitos dos seus textos possam ser interpretados de diversas formas. Essa interpretação pode ser correcta (e a minha errada), mas se ele queria criticar a rigidez do euro deveria ter posto isso em maiúsculas e não a redução de salários.
Quando um economista intervém na sociedade, deve ser suficientemente claro para que toda a gente saiba ao que vem. Krugman, contudo, parece querer jogar naquela dualidade que normalmente encontramos nos discursos dos Presidentes da República, talvez porque ainda não conseguiu descobrir até que ponto é um crítico do mercado e até que ponto é um entusiasta.

José M. Sousa disse...

Não concordo com essa interpretação do que o Krugman disse. Ele falou em "relativamente", o que subentende que parte do ajustamento pode ser pela via do aumento dos salários alemães, mas, além disso, cita o Wolfgang Munchau onde este diz precisamente que o Norte precisa de gastar mais e que isso é equivalente ao que o Krugman diz. Além disso, no final, afirma: "nobody has labor markets that flexible". Portanto, o que ele pretende é demonstrar que a Zona Euro é insustentável na sua actual forma.