...alguém, num debate sobre o PEC, em Coimbra, perguntava como é que, após esta crise, os economistas que povoavam os nossos meios de comunicação social eram os mesmos, sem mudanças. Como é que deixamos a construção da opinião pública a pessoas que, tendo a obrigação técnica de prever o que ia acontecer, foram apanhadas em falso, a errar continuadamente, foram postas ao ridículo, mostraram total incompetência para entender o sistema económico a e realidade a que este subjaz.
João César das Neves deve ser o economista com mais espaço nos meios de comunicação social do país, mas até ele parece estar indignado com esta situação.
"A comunicação social apresenta-se como meio informativo e assim parece considerada pelo público. Mas de facto poucos a usam para se informarem. O que realmente compram é pensamento enlatado, opinião pronta-a-vestir. Nos jornais e telejornais obtêm-se, não dados para alimentar a reflexão, mas reflexão já cozinhada que se engole acriticamente. Para satisfazer essa procura, grande parte dos media, mantendo a ficção de meios informativos, transmitem ideias pré-fabricadas."
Eu concordo plenamente com isto e portanto, fiquei com um pé atrás - a obrigação de não tirar conclusões precipitadas levou-me a ter de ler o artigo até ao final.
"Portugal tem evidentes problemas económicos, que suscitam atenção e merecem alarme. Mas o que conta na vida não é o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos acontece. Perante uma dificuldade vê-se a fibra da pessoa. Ou do povo. Nada na nossa situação económica justifica uma depressão psicológica geral. Certas circunstâncias pessoais merecem desânimo devido à impotência e desamparo perante o brutal choque concreto. Mas o desalento geral face ao risco abstracto é cobarde, egoísta, oportunista e mercenário. A atitude tíbia e resmungona da opinião pública deve-se, não à crise, mas à opinião pública."
Bem, um manifesto para levantar a moral do povo ainda não chega para ser criticado. Mas de repente surge:
"Só temos défice orçamental e dívida externa pelo excesso de regalias face ao que o País produz e pode pagar. Só temos desalento e irritação por causa da ilusão de um direito a um mundo sem crises, que gera indignação perante qualquer dificuldade. Mesmo na recessão, vivemos muito melhor que os nossos pais viviam. No entanto, embalados em pseudodireitos adquiridos, balanceamos entre euforia e depressão."
Mas eis que, volto a concordar...
Bem, basicamente, concordo com quase tudo neste artigo e, gostei tanto deste artigo que vou ajudar nesta tarefa de denunciar algumas ideias pré-fabricadas que nos entram todos os dias pela casa adentro:
1 - A crise será mesmo provocada porque os trabalhadores andaram a receber aumentos demasiado avultados nos seus salários?
2 - Porque é que temos realmente uma enorme falta de produtividade no país?
3 - Quem é que realmente andou a viver acima das possibilidades neste país?
4 - "Cada um, ao seu nível, tem de suportar o sofrimento e enfrentar a dificuldade." Ou seja, "ao seu nível" significa realmente o quê?
5 - Descer o subsídio de desemprego tem que resultado real na diminuição da despesa pública?
6 - Até onde é que o sector bancário está disposto a colaborar com a austeridade?
7 - Os alemães (a sociedade alemã, não o governo) que não querem contribuir para a Grécia, não será que é porque a contribuição também será assimétrica dentro da sociedade alemã?
8 - Os gregos, que parecem estar a refilar sem razão porque andaram durante anos a comer injustamente - será que "toda" a sociedade grega comeu? Ou melhor, será que os que mais beneficiaram do devaneio orçamental são os mesmos que agora vão contribuir para a austeridade?
9 - Será que as únicas formas de combater a dívida pública são o aumento do IVA, diminuição das reformas e o aperto do Rendimento Social de Inserção?
10 - Será que os desempregados o são porque simplesmente não querem trabalhar?E antes quando tínhamos uma das mais baixas taxas de desemprego dos países desenvolvidos era porquê?
Estas são só algumas perguntas. Eu tenho a minha resposta pessoal mas acho que é boa ideia continuar à procura...
Obrigado JCN pela dica...
Não acreditem em tudo o que ouvem...
3 de Maio de 2010
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