5 de Maio de 2010

um 5 de Outubro para o economista-Rei

o tempo actual, de crise deste sistema que ciclicamente afunda e mas que raramente partilha por todos os prejuízos, é o do império da lógica neoliberal. e não é pelo facto de não estar cumprido completamente o ideal de sociedade de Milton Friedman que não podemos falar de neoliberalismo. a privatização dos serviços públicos que tem determinado o fim do estado providência um pouco por todo o mundo, a par da progressiva desregulação dos vários mercados, são as condições para a bolha especulativa crescente tipica da actual economia de casino que, sem encontrar correspondência na economia real a nível da produção acaba no exacto momento em que a crença dos agentes é abalada.

as formas que o sistema (e a classe dominante) encontra para a sua legitimação desde sempre que ocupou os teóricos marxistas. a superestrutura, de Marx e Engels, respeitante aos aparelhos ideológicos que a burguesia controlaria (meios de comunicação social, aparelho juridico, forças armadas, religião), que foi sendo desenvolvido por muitos outros, é uma importante elaboração sobre as formas de produção ideologica e das ideias dominantes na sociedade.

nesse sentido, verificamos que o neoliberalismo dos nossos dias constroi-se muito pelo império da técnica sobre a escolha politica. e aí, os economistas e a "sua" Economia, têm sido óptimos instrumentos para assegurar o rumo deste projecto de sociedade. é desesperante perceber como o economista se tornou, de facto, "rei" (como diz Sapir) e como é sempre tratado como dono da verdade absoluta. é nestas condições que se aceita que Bagão Felix, apesar de ser das figuras mais à direita no espectro político português, seja sempre convidado da sic noticias a comentar todo e qualquer "assunto económico" enquanto "economista" supostamente independente. é pelo império da técnica que se aceita que no dia 1 de Maio o convidado a comentar a manifestação dos trabalhadores num telejornal seja o presidente da CIP. como se se considerasse já não existir luta ou interesses conflituantes na sociedade mas apenas vagas de descontentamento que até podem perfeitamente merecem a compreensão do representante dos patrões da Industria -afinal, ele só pretende a saída da crise e uma vida melhor para todos, incluíndo para os trabalhadores que emprega.

mas a verdade, é que existem e sempre existiram interesses contraditórios. e não podemos estar todos de acordo. por natureza o patrão e o trabalhador não concordarão. e essa conflitualidade naturalmente que se verifica também nas ciências sociais. ou pelo menos assim deveria ser...

talvez parte do projecto neoliberal não tivesse tão avançado se a Economia enquanto ciência não fosse tão una nas suas certezas e tão pouco plural. talvez, fica a hipótese, com a pluralidade, também o papel social do economista já não seria o mesmo - a visibilidade pública assenta em grande medida na condição de ser porta-voz dos mesmos interesses que lhe dão tanta voz.

perderá, no caminho da pluralidade, o economista a sua coroa?

0 comentários: