28 de Junho de 2010

A classe média: uma miragem?

A "classe média" é aquela classe onde toda a gente quer estar, mesmo sem saber muito bem o que significa o conceito. Uma vaga noção de "nem muito rico, nem muito pobre" chega para que a maioria da população se identifique como sendo de "classe média", formando um grupo onde cabe tudo, desde os precários dos centros comerciais aos seus patrões. Em torno desta identificação com uma classe imaginária, surge uma cultura, difundida pela comunicação social e outros meios de produção de ideologia.
Mas a ideia de que a maioria da população pertence à classe média dificilmente sobrevive à realidade dos factos. Sabemos hoje que cerca de 20% da população é pobre, dado que recebe menos de 60% do rendimento médio nacional (ou seja, menos de 360 euros). Este número é calculado após transferências sociais, note-se - de outra forma, a percentagem seria 40%. Note-se também que a maioria dos pobres em Portugal são idosos, por força de um sistema de segurança social que condena à pobreza pessoas que trabalharam décadas. Quem trabalha, contudo, não está livre da pobreza.
Quem é pobre não pode pertencer à classe média. Mas quem é "quase pobre" também dificilmente poderá pertencer a esta classe. Ora, um estudo recente do ISCTE concluiu que os "quase pobres" representam 30% da população. Tratam-se de pessoas que recebem entre 379 e 799 euros e, embora se encontrem acima do limiar da pobreza, não recebem o suficiente suprir as necessidades básicas do seu agregado familiar. Muitos dos membros desta classe sanduíche são licenciados, mas a precariedade no mercado de trabalho, o desemprego e o elevado custo de vida faz com que cheguem ao fim do mês a contar os cêntimos.
Ora vamos a ver se nos entendemos: 20% de pobres + 30% de "sanduíches" = metade da população a viver com a corda no pescoço. Isto num país onde a lista de milionários aumentou este ano de 10.400 para 11 mil. Onde fica então a classe média? Serão quase 50% que sobram?

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