Quem pretende estudar como os seres humanos tomam decisões não pode dispensar os conhecimentos da psicologia e da neurologia. Os estudos mais promissores na economia, aliás, são precisamente os que interligam a teoria económica com as descobertas no estudo do comportamento humano. Estes estudos pretendem superar a lacuna essencial desta ciência (o facto de se definir como a ciência da escolha sem, contudo, ter uma teoria da escolha) e merecem toda a nossa atenção.
Por agora, gostava de partilhar uma descoberta recente, tão entusiasmante quanto assustadora. Mas primeiro tenho de falar do córtex ventromedial pré-frontal, a área do cérebro responsável pela tomada de decisões. O neurologista António Damásio formulou a hipótese dos marcadores somáticos, que pretende apontar como esta área do cérebro nos pode ajudar a desenvolver heurísticas (regras simples de decisão) quando somos enfrentados com escolhas difíceis. Teoriza Damásio que o córtex ventromedial pré-frontal armazena informação sobre as experiências associadas a recompensas ou castigos, na forma de marcadores somáticos. Assim, quando temos de escolher entre alternativas múltiplas e complexas, os marcadores somáticos são agregados de forma a dar uma indicação sobre qual a alternativa a escolher.
Esta hipótese é relevante porque aponta no sentido de que a psicopatia tenha uma origem genética. A teoria de que a psicopatia está relacionada com danos no córtex ventromedial pré-frontal (ou na amígdala cerebelosa, uma pequena área do cérebro importante para os conteúdos emocionais das nossas memórias) foi apresentada pelo neurologista James Blair, num artigo tão polémico quanto os de Damásio (link para texto completo, acesso restrito).
Esta longa (mas precisa, espero) introdução serve para apresentar um delicioso artigo publicado em 2007, do qual Damásio é co-autor. O título é apelativo: "Damage to the prefrontal cortex increases utilitarian moral judgements" (link para texto completo). Não sei se terei de explicar melhor o que o artigo diz, de tão explícito que é o título, mas farei na mesma esse exercício.
O utilitarismo assenta na premissa de que nós fazemos as nossas escolhas avaliando todas as alternativas que temos ao nosso dispor numa unidade de medida comum (como "utilidade") e escolhendo a alternativa melhor (a que dá mais "utilidade", seguindo o exemplo). Nesta hipótese sobre a escolha, não há lugar para escolhas moralmente difíceis.
Suponhamos que um avião foi desviado por terroristas, que planeiam fazê-lo despenhar em cima de um edifício cheio de pessoas. Seguindo o critério utilitarista, faz todo o sentido abater o avião, se as vidas salvas excedem as vidas perdidas. Mas qualquer pessoa com um pingo de humanidade sentirá um aperto no estômago ao ter de fazer uma escolha destas e terá problemas de consciência com a sua decisão, seja qual for (abater ou não abater o avião). Alguém que se recusa a considerar esta escolha, porque acha que todas as vidas humanas são insubstituíveis, ou que sente arrependimento pela decisão tomada, mesmo achando que foi a decisão certa, não pensa de forma utilitarista.
Pelo contrário, uma pessoa com danos no córtex ventromedial pré-frontal é incapaz de ter uma resposta emocional à morte de pessoas inerente a este dilema moral. Nesse sentido, a resposta ao dilema é imediata: escolhe a opção que leve à morte de menos pessoas, seguindo um critério estritamente utilitarista. Esta pessoa não hesita sobre a decisão a tomar e não perde uma noite de sono por ter decidido matar umas pessoas para salvar outras.
Já há algum tempo que penso que a economia ortodoxa, ao apresentar o "homo oeconomicus" como um modelo do indivíduo, está a reduzir o ser humano a um psicopata/sociopata. Pior, nas suas prescrições normativas esta economia apresenta este modelo de comportamento como socialmente desejável, caindo na caricatura (algo injusta) que Charles Dickens fazia de John Stuart Mill em "Hard Times". O que não sabia, até há pouco, é que as muitas descobertas recentes na neurologia desmentem categoricamente a ideia de que somos todos "homo oeconomicus". Quanto tempo teremos de esperar até que estas descobertas tenham algum eco no ensino de economia?
2 de Junho de 2010
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)

1 comentários:
Os maquiavélicos austríacos, há mais de cem atrás, já haviam chegado a essa mesma conclusão.
http://www.youtube.com/watch?v=h36Dni1ZPX0
Enviar um comentário