10 de Junho de 2010

Pierre Bourdieu on Fátima Campos Ferreira (...salvo seja)

“Ora, quando vemos o que se passou por altura desse debate (e vou proceder como até aqui tenho feito, indo do mais visível ao mais escondido), descobrimos uma série de operações de censura.

Primeiro nível: o papel do apresentador. É o que impressiona sempre os espectadores. Estes vêem bem que o apresentador faz intervenções que coagem. É ele que impõe o tema, quem impõe a problemática (com frequência tão absurda, como no debate organizado por Durand - "Teremos de queimar as elites?" -, que todas as respostas, digam um sim ou um não, serão absurdas também). Impõe também o respeito da regra do jogo, cuja geometria é variável: não é a mesma quando se trata de um sindicalista ou quando se trata do Sr. Peyrefitte da Academia Francesa. Distribui a palavra, distribui os sinais de importância. Certos sociólogos têm tentando evidenciar o implícito não verbal da comunicação verbal: dizemos tanto por meio dos olhares, dos silêncios, dos gestos, das mímicas, dos movimentos dos olhos, etc., como por meio da palavra. E o mesmo se diga da entoação, e de outras coisas de toda a espécie. Por isso transmitimos enormemente mais do que podemos controlar” (…) “O próprio apresentador intervém por meio da linguagem inconsciente, pela maneira de pôr os problemas, pelo tom: dirá a uns, num tom cortante, ‘faça o favor de responder, não respondeu à minha pergunta’, ou ‘Estou à espera da sua resposta. Vão voltar à greve?’”

“Outra estratégia do apresentador: manipular a urgência; serve-se do tempo, da urgência, do relógio, para cortar a palavra, para apressar, para interromper. E aqui dispõe ainda de outro recurso, como todos os apresentadores, que é o de se assumir como porta-voz do público: ‘Vou interrompê-lo, não percebo isso que nos está a dizer.” Não dá assim a entender que é um idiota, dá a entender que o espectador de base, por definição idiota, não percebe. E que ele se faz porta-voz dos ‘imbecis’ para interromper um discurso inteligente.” (…) “o resultado é que, bem feitas as contas, numa emissão de duas horas, o representante da CGT teve exactamente cinco minutos, no total, adicionadas todas as suas intervenções (ora, toda a gente sabe que, se não existisse a CGT, não teria havido greve, nem emissão, etc.). Ao mesmo tempo, e é por isso que a emissão de Cavada se torna significativa, todos os traços exteriores da igualdade formal tinham sido respeitados.”

“O que põe um problema efectivamente importante do ponto de vista da democracia: é evidente que nem todos os locutores estão em pé de igualdade no estúdio. Temos de um lado os profissionais do estúdio, profissionais da palavra e do estúdio, e diante deles, amadores (podem ser grevistas que, à roda da fogueira, vão…), numa situação de extraordinária desigualdade. Para que a igualdade fosse minimamente restabelecida seria preciso que o apresentador fosse desigual, quer dizer, auxiliasse os mais desprovidos relativamente (…) Quando se quer que alguém que não é um profissional da palavra consiga dizer coisas (e muitas vezes dirá coisas de facto extraordinárias, coisas que as pessoas que têm a palavra o tempo todo, não seriam sequer capazes de pensar) torna-se necessário um trabalho de assistência ao exercício da palavra. (…) Trata-se de nos pormos ao serviço de alguém cuja palavra é importante, de alguém cujo pensamento queremos conhecer, ajudando-o no seu parto. Ora, não é nada disto que os apresentadores fazem. Não só não ajudam os desfavorecidos, como por assim dizer, tendem a enterrá-los. De mil e uma maneiras: não lhes dando a palavra no momento certo, dando-lhes a palavra no momento em que eles já não estão à espera dela, manifestando impaciência, etc.”

“Mas aqui continuamos ainda ao nível da fenomenal. E devemos passar depois ao segundo nível: a composição do painel. Esta é determinante. É um trabalho invisível cujo resultado é o próprio painel. (…) Eis o painel, e o que é percebido esconde o não percebido: não vemos, num percebido que é construído, as condições sociais de construção. Portanto, não nos dizemos ‘olha, não está Fulano’.”

“E, ao mesmo tempo, nem todos os golpes são permitidos. Os golpes devem adaptar-se à lógica da linguagem formal, erudita. Outras propriedades do espaço: a cumplicidade entre profissionais que há pouco evoquei. Aqueles a que chamei os fast-thinkers, os especialistas do pensamento descartável, são o que os profissionais chamam “os bons clientes”. São pessoas que se podem convidar, porque se sabe que comporão bem as coisas, que não criarão dificuldades, não arranjarão complicações, e além disso falam abundantemente, sem problemas.”

(excertos do livro "Sobre a Televisão" de Pierre Bourdieu)

2 comentários:

Tiago Santos disse...

É impressionante como o nome Fátima Campos Ferreira no título nos dá a sensação de que o texto parece escrito de propósito para ela...

Zé Miranda disse...

lol!

enquanto lia este capitulo sobre os debates televisivos, associei imediatamente à Fatima. é impressionante, ela é mesmo má. então aqueles debates semana após semana sobre empreendedorismo.......... matam-me...