2 de Novembro de 2010
Mudamos de casa
6 de Outubro de 2010
5 de Outubro de 2010
Porque a descida de salários não promove a competitividade
27 de Setembro de 2010
Charada simples
3 de Agosto de 2010
A ciência económica não mudou uma vírgula...
(...)
"Quando, nesse dia no Capitólio, admitiu o erro na sua ideologia de inovação financeira sem controlo, Greenspan acrescentou que teremos mais crises porque há uma só variável constante em todas elas: a natureza humana. Mudá-la é impossível. Talvez ajude começar por compreendê-la."
Nem eu defendo outra coisa - compreende-la. E mais, acho que compreende-la é o que falta no ensino da economia e que Frey, citado no texto de PSG tenta ao longo do seu percurso como economista ligado à psicologia comportamental.
Entender que o ser humano não é apenas uma calculadora instantânea maximizadora de prazeres e minimizadora de dores, entender que os incentivos não são a única nem a melhor forma de motivação e de nos "fazer correr" é um grande passo para chegar a novas conclusões que creio serem muito mais válidas para tornar também mais válidas as conclusões da Ciência Económica e a sua utilidade para os milhares de milhões de seres humanos que dos seus postulados estão dependentes.
8 de Julho de 2010
Dúvida que me assalta...
1 de Julho de 2010
Prova de vida...
E o que está em questão é o imediatismo dos lucros no curto prazo e que o negócio da Vivo permitiria aos bancos e grandes accionistas e, o interesse, não só do Estado, mas da própria PT, que se veria sem o seu principal activo, mais lucrativo e com maior potencial de crescimento - tão apetecível que a Telefónica está disposta a dar por ele "este mundo e o outro".
28 de Junho de 2010
A classe média: uma miragem?
Mas a ideia de que a maioria da população pertence à classe média dificilmente sobrevive à realidade dos factos. Sabemos hoje que cerca de 20% da população é pobre, dado que recebe menos de 60% do rendimento médio nacional (ou seja, menos de 360 euros). Este número é calculado após transferências sociais, note-se - de outra forma, a percentagem seria 40%. Note-se também que a maioria dos pobres em Portugal são idosos, por força de um sistema de segurança social que condena à pobreza pessoas que trabalharam décadas. Quem trabalha, contudo, não está livre da pobreza.
Quem é pobre não pode pertencer à classe média. Mas quem é "quase pobre" também dificilmente poderá pertencer a esta classe. Ora, um estudo recente do ISCTE concluiu que os "quase pobres" representam 30% da população. Tratam-se de pessoas que recebem entre 379 e 799 euros e, embora se encontrem acima do limiar da pobreza, não recebem o suficiente suprir as necessidades básicas do seu agregado familiar. Muitos dos membros desta classe sanduíche são licenciados, mas a precariedade no mercado de trabalho, o desemprego e o elevado custo de vida faz com que cheguem ao fim do mês a contar os cêntimos.
Ora vamos a ver se nos entendemos: 20% de pobres + 30% de "sanduíches" = metade da população a viver com a corda no pescoço. Isto num país onde a lista de milionários aumentou este ano de 10.400 para 11 mil. Onde fica então a classe média? Serão quase 50% que sobram?
23 de Junho de 2010
Patrões de todo o mundo, uni-vos!
Passos Coelho já fez saber que está do seu lado. Mais um valente soldado na guerra de classes dos ricos contra os pobres.
16 de Junho de 2010
14 de Junho de 2010
A bola de neve (Petição pela Igualdade)
A privatização, que necessita do subfinanciamento público para acontecer (são dois processos que se alimentam e que crescem como uma bola de neve), apenas trás a desigualdade. A desigualdade no acesso (segundo um estudo de Belmiro Cabrito, as propinas afastam 1/3 dos estudantes mais pobres), a desigualdade no sucesso que é potenciada pelas desiguais meios de vida e de estudo a que a insuficiente acção social não responde (alguns estudantes têm de trabalhar, outros não têm meios para o material), assim como se revela incapaz de cumprir os designios de um ensino superior público que igualiz as diferenças de partida (desigual distribuição de capital cultural) - essencialmente, temos a desigualdade como principal consequência das mutações operadas na universidade.
Assim, de arrasto, também verificamos a progressiva empresarialização das nossas universidades, que corrompe a democracia interna das mesmas. A crise de legitimidade da universidade e das suas formas de organização próprias, perante a de outras organizações como as empresas, tem origem não só aqui (e os politicos devem responder pelo que fazem) mas faz parte de um processo mais amplo, de politicas educativas que são forjadas a nivel global, por instituições supranacionais como a UE, a OCDE e até o BM, que os sucessivos ministérios têm acatado como carneiros as suas politicas, indicações e pareceres.
Haverá vontade politica para um caminho diferente para que a nossa universidade seja melhor se houver força social para o impôr.
Eu já assinei a petição pela igualdade no ensino superior.
13 de Junho de 2010
Debatendo a crise
E de toda a possibilidade de debate público que a crise gerou em torno das suas causas e soluções, surpreende sobretudo que esse debate (que em larga escala ainda é essencialmente mediado pelos meios tradicionais, blogosfera ainda vai sendo relativamente irrelevante perante a TV ou o jornal) não nos tenha trazido nada de novo e que até tenha servido para reforçar duas tendências que já vêm de trás:
- por um lado, verifica-se uma amplificação/multiplicação do debate económico exactamente sobre os mesmos moldes desiguais em que assenta, seguindo sempre os mesmos cânones, com os mesmos “opinion makers” do costume e sem espaço para as correntes de pensamento critico. Nas ruínas da crise, a agenda liberal, totalmente dominante, vê alargar o seu auditório para explicar que os problemas estão na falta de competitividade da economia que limita as exportações e que deriva directamente da rigidez do mercado laboral, ou que um défice orçamental nulo como é condição essencial para o crescimento (eliminando qualquer hipótese de investimento público de qualquer ordem, muito menos a hipótese de uma politica para o emprego por parte do Estado), ou ainda para colocar falsas questões (como Daniel Bessa que coloca a privatização da saúde e do ensino como uma inevitabilidade para que não haja despedimento de trabalhadores da função pública; ou como na discussão da redução dos salários dos políticos) que cumprem muito bem a agenda de quem não quer observar a desigual repartição dos custos da crise (essencialmente sobre o trabalho), nem reflectir sobre as escolhas passadas que nos trouxeram os problemas presentes.
- por outro, a eleição/hegemonia da Economia e do pensamento económico como técnica privilegiada e única capaz de nos oferecer uma leitura clarificadora sobre os acontecimentos (económicos e políticos), confinando o âmbito da discussão pública sobre a crise às questões de foro económico, limitando dessa forma o leque de oradores aos “peritos” que estão legitimados para falar sobre economia (e portanto sobre a crise); fortalecendo, assim, a Economia da inevitabilidade ou, se quisermos, a Economia que não admite a possibilidade (outras) escolhas, enfim, reforçando a Economia que está contra a Politica.
12 de Junho de 2010
11 de Junho de 2010
Como dizer o que nos apetece e esquecer o que nos dá jeito...
Isto quando alguns dos países que na Europa estão com mais dificuldades eram países que antes da crise tinham superavits nas suas contas públicas...
Este senhor esteve em Marte nos últimos 3 anos?
10 de Junho de 2010
Pierre Bourdieu on Fátima Campos Ferreira (...salvo seja)
“Ora, quando vemos o que se passou por altura desse debate (e vou proceder como até aqui tenho feito, indo do mais visível ao mais escondido), descobrimos uma série de operações de censura.
Primeiro nível: o papel do apresentador. É o que impressiona sempre os espectadores. Estes vêem bem que o apresentador faz intervenções que coagem. É ele que impõe o tema, quem impõe a problemática (com frequência tão absurda, como no debate organizado por Durand - "Teremos de queimar as elites?" -, que todas as respostas, digam um sim ou um não, serão absurdas também). Impõe também o respeito da regra do jogo, cuja geometria é variável: não é a mesma quando se trata de um sindicalista ou quando se trata do Sr. Peyrefitte da Academia Francesa. Distribui a palavra, distribui os sinais de importância. Certos sociólogos têm tentando evidenciar o implícito não verbal da comunicação verbal: dizemos tanto por meio dos olhares, dos silêncios, dos gestos, das mímicas, dos movimentos dos olhos, etc., como por meio da palavra. E o mesmo se diga da entoação, e de outras coisas de toda a espécie. Por isso transmitimos enormemente mais do que podemos controlar” (…) “O próprio apresentador intervém por meio da linguagem inconsciente, pela maneira de pôr os problemas, pelo tom: dirá a uns, num tom cortante, ‘faça o favor de responder, não respondeu à minha pergunta’, ou ‘Estou à espera da sua resposta. Vão voltar à greve?’”
“Outra estratégia do apresentador: manipular a urgência; serve-se do tempo, da urgência, do relógio, para cortar a palavra, para apressar, para interromper. E aqui dispõe ainda de outro recurso, como todos os apresentadores, que é o de se assumir como porta-voz do público: ‘Vou interrompê-lo, não percebo isso que nos está a dizer.” Não dá assim a entender que é um idiota, dá a entender que o espectador de base, por definição idiota, não percebe. E que ele se faz porta-voz dos ‘imbecis’ para interromper um discurso inteligente.” (…) “o resultado é que, bem feitas as contas, numa emissão de duas horas, o representante da CGT teve exactamente cinco minutos, no total, adicionadas todas as suas intervenções (ora, toda a gente sabe que, se não existisse a CGT, não teria havido greve, nem emissão, etc.). Ao mesmo tempo, e é por isso que a emissão de Cavada se torna significativa, todos os traços exteriores da igualdade formal tinham sido respeitados.”
“O que põe um problema efectivamente importante do ponto de vista da democracia: é evidente que nem todos os locutores estão em pé de igualdade no estúdio. Temos de um lado os profissionais do estúdio, profissionais da palavra e do estúdio, e diante deles, amadores (podem ser grevistas que, à roda da fogueira, vão…), numa situação de extraordinária desigualdade. Para que a igualdade fosse minimamente restabelecida seria preciso que o apresentador fosse desigual, quer dizer, auxiliasse os mais desprovidos relativamente (…) Quando se quer que alguém que não é um profissional da palavra consiga dizer coisas (e muitas vezes dirá coisas de facto extraordinárias, coisas que as pessoas que têm a palavra o tempo todo, não seriam sequer capazes de pensar) torna-se necessário um trabalho de assistência ao exercício da palavra. (…) Trata-se de nos pormos ao serviço de alguém cuja palavra é importante, de alguém cujo pensamento queremos conhecer, ajudando-o no seu parto. Ora, não é nada disto que os apresentadores fazem. Não só não ajudam os desfavorecidos, como por assim dizer, tendem a enterrá-los. De mil e uma maneiras: não lhes dando a palavra no momento certo, dando-lhes a palavra no momento em que eles já não estão à espera dela, manifestando impaciência, etc.”
“Mas aqui continuamos ainda ao nível da fenomenal. E devemos passar depois ao segundo nível: a composição do painel. Esta é determinante. É um trabalho invisível cujo resultado é o próprio painel. (…) Eis o painel, e o que é percebido esconde o não percebido: não vemos, num percebido que é construído, as condições sociais de construção. Portanto, não nos dizemos ‘olha, não está Fulano’.”
“E, ao mesmo tempo, nem todos os golpes são permitidos. Os golpes devem adaptar-se à lógica da linguagem formal, erudita. Outras propriedades do espaço: a cumplicidade entre profissionais que há pouco evoquei. Aqueles a que chamei os fast-thinkers, os especialistas do pensamento descartável, são o que os profissionais chamam “os bons clientes”. São pessoas que se podem convidar, porque se sabe que comporão bem as coisas, que não criarão dificuldades, não arranjarão complicações, e além disso falam abundantemente, sem problemas.”
(excertos do livro "Sobre a Televisão" de Pierre Bourdieu)
9 de Junho de 2010
Pierre Cailleteau, esse radical de esquerda...
Ah espera lá, é especialista em dívida soberana da agência Moody's?
É que eu li que "Pierre Cailleteau identifica dois grandes problemas: o euro está desprotegido em termos políticos e a ausência de um Tesouro Europeu e de um orçamento de outra envergadura tornam ainda mais evidente essa debilidade."
E fiquei muito confuso...
4 de Junho de 2010
Economistas que não percebem nada de economia
(...) a voz da razão diz-nos que subsiste um forte risco de recessão ou, pelo menos, estagnação prolongada. Alerta-nos para a necessidade de os apoios às economias não serem retirados enquanto a procura privada não reanimar. Faz-nos ver que nem todas as dívidas poderão ser pagas. Recomenda, por isso, a renegociação internacional das dívidas e a aceitação de níveis de inflação um pouco mais elevados como forma de desvalorizá-las. Sugere um empenhamento na eliminação dos excedentes persistentes pelo menos tão grande como aquele que é dirigido contra os défices persistentes. "Last but not least", recomenda a aceleração das reformas das instituições financeiras e do seu funcionamento.João Pinto e Castro, Jornal de Negócios.
A estagnação da economia é, em parte, consequência da força da moeda única (...)João Ferreira do Amaral, Jornal de Negócios.
A Europa caminha na direcção errada. Ao adoptar a moeda única, os países membros da zona do euro renunciaram a dois instrumentos de política: as taxas de câmbio e as taxas de juro. Tinha que se encontrar alguma coisa que lhes permitisse adaptarem-se à conjuntura quando necessário. Tanto mais que Bruxelas não foi suficientemente longe na regulação dos mercados, achando que eles eram omnipotentes. Mas a União Europeia (UE) não previu nada nesse sentido. E agora quer um plano coordenado de austeridade. Se continuar nessa via, caminha para o desastre. Sabemos, desde a Grande Depressão dos anos 1930, que não é isto que se deve fazer.Joseph Stiglitz, Le Monde.
O BCE tem de cometer a heresia de imprimir moeda e cair na tentação de inflacionar a economia. Temos de ser pragmáticos, tirar todas as palas dos olhos e do pensamento e aplicar as melhores soluções mesmo que sejam uma heresia monetária. A crise que vivemos é demasiado perigosa, é tóxica, sim, mas porque ameaça os pilares que garantiram a paz europeia durante mais de meio século.
Helena Garrido, Jornal de Negócios.
Faria mais sentido que os países da UE se coordenassem numa estratégia de saída gradual da crise, em vez de aderirem a uma estratégia de austeridade que se arrisca a aumentar a probabilidade de incumprimento.Ricardo Paes Mamede, Sol.
2 de Junho de 2010
O homo oeconomicus, esse psicopata
Por agora, gostava de partilhar uma descoberta recente, tão entusiasmante quanto assustadora. Mas primeiro tenho de falar do córtex ventromedial pré-frontal, a área do cérebro responsável pela tomada de decisões. O neurologista António Damásio formulou a hipótese dos marcadores somáticos, que pretende apontar como esta área do cérebro nos pode ajudar a desenvolver heurísticas (regras simples de decisão) quando somos enfrentados com escolhas difíceis. Teoriza Damásio que o córtex ventromedial pré-frontal armazena informação sobre as experiências associadas a recompensas ou castigos, na forma de marcadores somáticos. Assim, quando temos de escolher entre alternativas múltiplas e complexas, os marcadores somáticos são agregados de forma a dar uma indicação sobre qual a alternativa a escolher.
Esta hipótese é relevante porque aponta no sentido de que a psicopatia tenha uma origem genética. A teoria de que a psicopatia está relacionada com danos no córtex ventromedial pré-frontal (ou na amígdala cerebelosa, uma pequena área do cérebro importante para os conteúdos emocionais das nossas memórias) foi apresentada pelo neurologista James Blair, num artigo tão polémico quanto os de Damásio (link para texto completo, acesso restrito).
Esta longa (mas precisa, espero) introdução serve para apresentar um delicioso artigo publicado em 2007, do qual Damásio é co-autor. O título é apelativo: "Damage to the prefrontal cortex increases utilitarian moral judgements" (link para texto completo). Não sei se terei de explicar melhor o que o artigo diz, de tão explícito que é o título, mas farei na mesma esse exercício.
O utilitarismo assenta na premissa de que nós fazemos as nossas escolhas avaliando todas as alternativas que temos ao nosso dispor numa unidade de medida comum (como "utilidade") e escolhendo a alternativa melhor (a que dá mais "utilidade", seguindo o exemplo). Nesta hipótese sobre a escolha, não há lugar para escolhas moralmente difíceis.
Suponhamos que um avião foi desviado por terroristas, que planeiam fazê-lo despenhar em cima de um edifício cheio de pessoas. Seguindo o critério utilitarista, faz todo o sentido abater o avião, se as vidas salvas excedem as vidas perdidas. Mas qualquer pessoa com um pingo de humanidade sentirá um aperto no estômago ao ter de fazer uma escolha destas e terá problemas de consciência com a sua decisão, seja qual for (abater ou não abater o avião). Alguém que se recusa a considerar esta escolha, porque acha que todas as vidas humanas são insubstituíveis, ou que sente arrependimento pela decisão tomada, mesmo achando que foi a decisão certa, não pensa de forma utilitarista.
Pelo contrário, uma pessoa com danos no córtex ventromedial pré-frontal é incapaz de ter uma resposta emocional à morte de pessoas inerente a este dilema moral. Nesse sentido, a resposta ao dilema é imediata: escolhe a opção que leve à morte de menos pessoas, seguindo um critério estritamente utilitarista. Esta pessoa não hesita sobre a decisão a tomar e não perde uma noite de sono por ter decidido matar umas pessoas para salvar outras.
Já há algum tempo que penso que a economia ortodoxa, ao apresentar o "homo oeconomicus" como um modelo do indivíduo, está a reduzir o ser humano a um psicopata/sociopata. Pior, nas suas prescrições normativas esta economia apresenta este modelo de comportamento como socialmente desejável, caindo na caricatura (algo injusta) que Charles Dickens fazia de John Stuart Mill em "Hard Times". O que não sabia, até há pouco, é que as muitas descobertas recentes na neurologia desmentem categoricamente a ideia de que somos todos "homo oeconomicus". Quanto tempo teremos de esperar até que estas descobertas tenham algum eco no ensino de economia?
Tamanho do Estado
É algo que tem mais a ver com a forma como o Estado actua e, neste aspecto, concordo plenamente com ele.
O Estado português é grande demais mas não é por ter um demasiado elevado nível de impostos ou de despesa pública, que até são inferiores à media europeia. No tempo do Salazarismo tinhamos uma despesa pública ínfima e impostos baixos. No entanto, alguém ousa dizer que tinhamos um Estado pequeno na altura? Não, tinhamos um Estado enorme que condicionava a vida das pessoas, mesmo sem haver subsídios de desemprego ou RSI's, mesmo sem instituições públicas numerosas ou inúmeros serviços públicos ou Serviço Nacional de Saúde.
O nosso Estado é grande, concluo, mas não é pelos mesmos instrumentos de medida que tantos outros: o que é grande é a forma como grande parte do Estado está relacionada, por exemplo, com o mundo económico e financeiro, como o senhor Jorge Coelho também continua a ser parte do Estado depois de ir para a Mota-Engil, como Belmiro de Azevedo é parte do Estado sempre que o nosso Primeiro-Ministro lhe pede a opinião acerca das políticas.
É esse o nosso grande Estado, uma herança do nosso fascismo, as redes sociais informais que se criaram e que perduram e que controlam grande parte dos nossos movimentos, que controlam a comunicação social, empresas, até as polícias talvez. Que dão lugar à corrupção...
É esse o Estado enorme e é com este que se tem de acabar: isto só se faz se um Estado verdadeiramente forte for capaz de largar a lógica do "amiguismo" típicamente portuguesa. Se se conseguir tornar uma instituição legítima.
O debate actual sobre o tamanho do Estado reduz-se apenas aonde se quer mais tamanho: se na melhoria das condições de vida das pessoas ou no aumento do número de prisões - o Estado Social contra o Estado Penal...
1 de Junho de 2010
Pensar como um economista...
Esta forma de pensar a economia olha para os painéis solares de uma perspectiva apenas com vista à obtenção de lucro individual sem qualquer outra preocupação ambiental, por exemplo, declarando que o único incentivo para a proliferação destas fontes de energia foi a subida do preço do petróleo. Nada mais, e assim se reduz um tema sensível a números.
Lembra também que estas fontes de energia estão actualmente sujeitas a subsídios dos Estados para incentivar a sua procura. Com a necessidade actual de cortes nas despesas públicas, nenhum Estado aguenta estes custos. Obviamente que a sua análise à economista lhe impede de ver custos muito maiores que os combustíveis fósseis têm para a biodiversidade, para o ambiente em geral e que até se podem propagar facilmente à economia.
Assim se reduz um debate a contas fáceis mas que apenas representam uma parte da discussão que, muitas vezes, como neste caso, não é a parte mais importante.
31 de Maio de 2010
os Inteligentes...
Talvez seja por isso que estamos onde estamos actualmente. Talvez seja por isto que são, mais uma vez, os trabalhadores os sacrificados pela austeridade exigida pelos desmandos da finança aos quais são alheios.
Camilo Lourenço, sem querer, mostra-nos porque é preciso lutar, de uma vez por todas. Mas também mostra porque é que os trabalhadores não têm lutado. Não se trata de inteligência ou falta dela, trata-se antes de instinto de sobrevivência. Trata-se de um sistema que se diz concorrêncial mas que é desequilibrado. Os trabalhadores são, porque disso depende a sua sobrevivência, a escolher sempre o emprego. Mesmo que isso se traduza em perda de qualidade de vida, em descidas de salários, em exploração, em ter de ficar de bico calado e sem vida própria.
26 de Maio de 2010
Gozar com os pobres
As receita médica será alterada, de forma a que apareça úma lista de medicamentos mais baratos que os prescritos pelo médico. Ou seja, se eu for a um centro de saúde e me passarem uma receita de Aspirina, eu fico a saber depois que poderia escolher antes um medicamento de outra marca ou genérico cujo princípio activo é exactamente o mesmo mas que é mais barato. De que me serve esta informação? De nada, porque continuo sem ter o direito de escolher a marca do medicamento e o médico continua a ter a autoridade para me impedir de pedir um genérico.
Este governo não se limita a atacar os pobres, chega mesmo ao ponto de gozar com eles.
24 de Maio de 2010
Três estórias sobre o neo-liberalismo
Estória #1: Um casal dança desajeitadamente o tango numa danceteria. Deliberadamente, pisam toda a gente por onde passam. Um dos dançarinos desfaz-se em desculpas, mas as pessoas ficam cada vez mais furiosas com a falta de jeito. Eventualmente, são corridos da danceteria e a festa continua sem pisadelas.
O resto da crónica pode ser lido no esquerda.net
20 de Maio de 2010
beware of cutting back on stimulus too soon
And, the economy responded. Growth was very rapid in the mid-1930's(...).
The economy was road to recovery, but still precarious and not yet at a point where private demand was ready to carry the full load of generating growth.
In this fragile environment, fiscal policy turned sharply contractionary. (...) As a result, the deficit was reduced by roughly 2,5% of GDP.
(...)
The results of the fiscal and monetary double whammy in the precarious environment were disastrous. (...) Policymakers soon reversed course and the strong recovery resumed, but taking the wrong turn in 1937 effectively added two years to the Depression.
in Christina D. Romer (2009) Lessons from the Great Depression for Economic Recovery in 2009
19 de Maio de 2010
Visita (oficial) a Wall Street
Esta visita tem como objectivo tentar acalmar os mercados perante os vários ataques especulativos que Portugal tem vindo a ser alvo, estando já agendadas mais de 250 reuniões com investidores institucionais.
Após ler esta notícia numa revista semanária comecei a pensar em várias questões;
Não estamos aqui a assistir a uma inversão nas relações de forças?
Não deveriam ser os mercados financeiros a responder perante os vários governos?
Mercados esses, que causaram esta crise na dita “economia real” a partir dos seus mecanismos fictícios e fraudulentos. Tendo sido até agora em quase nada responsabilizados.
Como é possível deixar o mercado financeiro ter tanta influência, ao ponto de um Ministro da Finanças de um qualquer País ser obrigado a negociar com esse mesmo mercado?
Este não é um texto para exaltar a minha compreensão económica das coisas. É sim para demonstrar o meu questionamento e a minha revolta perante um sistema que nos transmite a ideia de a “Economia” ser intocável. E isto ao ponto de se ter generalizado a ideia de que as “questões económicas” são tão importantes, que não podem responder perante os seus principais intervenientes… As pessoas.
Hoje não é a Democracia e a vontade das pessoas que dita as políticas economias. É sim uma “Economia” dominante que impõem às pessoas a sua vontade e dita a sua própria “Democracia”.
A cegueira do costume
Note-se bem a cegueira deste economista. Ele não escreveu em maiúsculas que os salários na Alemanha têm de aumentar. Também não escreveu em maiúsculas que a "livre concorrência" na UE prejudica imenso os países mais pobres, incapazes de competir com os países mais ricos. E também não escreveu que a crise do euro é uma crise de falta de solidariedade na UE. Nada disso, o que escreveu foi que os nossos salários têm de descer para sermos competitivos, caso contrário estamos perdidos.
Krugman dixit: desçamos o salário mínimo nacional para 332.5€-380€. Isso vai resolver todos os nossos problemas. Talvez até haja a possibilidade de rescuscitar Salazar, esse sabia bem como disciplinar o povo para aceitar estas difíceis mas necessárias reformas.
Mas passemos de um economista brilhante (que também diz disparates, claro) para um daqueles economistas assim-assim (para ser simpático) que aparecem nos jornais a defender a cartilha neo-liberal. Falemos de Campos e Cunha, economista que um dia se doutorou na Columbia University de Nova Iorque e depois nunca mais fez nada de jeito. Diz o ex-Ministro das Finanças relativamente ao PEC que "mesmo que atinjamos a meta do défice em 2014, não vamos consegui-lo em 2004, porque as facturas das despesas com as concessões e as parcerias público-privadas (PPP) vão começar a chegar". Conclusão normativa lógica: é preciso reduzir drasticamente a despesa pública, cortando em despesas com pessoal, prestações sociais, etc.
Mantenhamos o clientelismo e o rentismo inerentes às PPP, compensemos o aumento de custos que daí advém com mais penalizações para quem trabalha, Campos e Cunha dixit.
Triste economia esta, que se deixa tolher por dogmas.
18 de Maio de 2010
Esquerda responsável...pela crise...
Metade das frases não correspondem à verdade de esquerda nenhuma, pelo menos que eu conheça, em Portugal.
A outra metade, são frases de alguém que se tornou comodista: "Há uma esquerda arcaica (...) que acha que pode haver eficíência económica fora da economia de mercado...".
Pois é...é isto que podemos esperar deste socialismo. Um socialismo derrotado, comodista, que se contenta com uma economia de mercado geradora de desigualdades: não há alternativa não é?
"Infelizmente, o lugar destas ideias e outras semelhantes só pode ser a oposição..."
Não, VM, infelizmente, o lugar das suas ideias e outras semelhantes foi o poder em muito lado. E aí passaram ao lado da mudança, passaram ao lado das pessoas, passaram ao lado do socialismo.
Depois ainda se perguntam porque é que, depois desta crise, as pessoas parecem virar-se para a direita que a provocou. As pessoas preferem a coerência má do que a incoerência que nunca se sabe quando nos atraiçoa...
17 de Maio de 2010
Ciclo da vida...
Como a sua família é de fracos rendimentos e o João até "tem jeito" prós estudos, vai a uma agência de um banco e pede um empréstimo para poder estudar.
O João tira o curso, sendo um aluno dentro da média, que se esforçou minimamente, e agora, vai entrar no mercado de trabalho. Ainda pensou em tirar um mestrado logo a seguir à licenciatura mas isso exigia pedir um novo empréstimo, o que o João põe de parte.
O João procura emprego, mas não consegue encontrar nada de especial. Vive numa aldeia, por isso, para procurar emprego ou mesmo como condição preferencial para conseguir o emprego, precisa de uma viatura própria que consegue através de mais um empréstimo.
Consegue encontrar um estágio não remunerado numa cidade, o que o obriga a arranjar um quarto na dita cidade. O João aceita porque é importante adquirir competências para mais tarde encontrar um trabalho melhor.
De seguida a empresa onde o João teve o estágio convida-o a ficar a recibo verde e o João, não tendo alternativa, e já com alguns créditos a pagar, lá aceita, na esperança de uma vida melhor no futuro.
Um dia, o João fica doente durante um mês e deixa de poder fazer o seu trabalho. Como estava a recibo verde, não recebeu nada durante este mês. Lá conseguiu pagar as prestações dos créditos a custo com as poupanças que os pais fizeram das suas reformas.
Aí, a empresa decide prescindir do João que passa a ficar desempregado.
(Sinceramente, nem sei se uma pessoa nestas condições tem direito a subsídio de desemprego).
Agora, querem que o João faça trabalho comunitário gratuitamente.
Um dia, o João vai conseguir arranjar um empregozito numa empresa pequena lá da zona e receber um ordenadozito minimamente estável. Vai encontrar a Maria e vai pensar em casar. O João sempre pagou créditos ao banco desde que saiu de casa dos pais. Ele e a Maria vão pedir mais um crédito habitação que o Banco, gentilmente, concede.
Um dia, com 40 anos, o João, que sempre teve de trabalhar várias horas extra por dia, verá a empresa onde trabalha ir à falência. O João nunca teve tempo para estudar mais, adquirir novas competências, pelo que voltará a estar desempregado. E com o crédito habitação ainda a decorrer...
O João, que nunca recebeu muito e entretanto teve 2 maravilhosos filhos com a Maria, nunca conseguiu poupar grande coisa, embora as férias paradisíacas nas ilhas do pacífico tenham sido sempre adiadas ad eternum...
O João deixa de conseguir pagar o crédito...
Os políticos desse tempo dirão todos que o João, é um excelente exemplo do desbarato da generalidade da população, que perdeu hábitos de poupança e abusou do consumo desenfreado...
Quando o João chega aos 50, o seu filho mais velho gostava de ir para a universidade...
Jogos da teoria...
Eu pergunto, não esperavam? E pus-me a pensar...
Afinal, praticamente todos os Estados estão com problemas financeiros e de vez em quando lá ouvimos falar que os mercados financeiros (esse bicho papão sem rosto) estão outra vez a lançar um ataque especulativo ao euro por via da dívida pública de um qualquer país periférico da UEM...
Ora, se todos os Estados estão com problemas financeiros, todos sabemos que eles têm dividas a...bancos...ou seja, os tais mercados financeiros onde os Estados se vão financiar são constituídos pelos Deutsches Banks e outros parecidos que vão lucrando com a brincadeira...
Então, se o amigo Josef Ackerman puder lançar um bocadinho mais de instabilidade e ganhar uns trocos com isso, qual o incentivo para que não o faça? Afinal, o objectivo não é apenas o lucro?
Obviamente que se o Euro cair, não será bom para ninguém, nem para o o Deutsche Bank, mas é para isso que servem as Angelas Merkels deste mundo, para resolverem crises recorrendo à austeridade de quem não conheceu qualquer vida que não fosse austera...
No fundo, tudo funciona como um íman a tirar pregos de ferro do meio da terra: é preciso remexer a terra para o íman poder atrair o ferro facilmente...Aqui é simples, vai-se mexendo a sociedade, aplicando a austeridade - sabemos que os mercados financeiros tem o poder absoluto para fazer ou não cair um país e enquanto puderem sugar o sangue, vão sugá-lo...
Não quero lançar nenhuma teoria da conspiração acerca das declarações de JA. Apenas quero dizer que, ao contrário da apologia dos mercados eficientes, a verdade é que o bem de uns, nos mercados financeiros, se faz à custa do mal de muitos. Não há qualquer equilíbrio ao qual recorrer nesta situação...A espiral é negativa para uns para que seja positiva para outros.
A austeridade será sempre assimétrica...
7 de Maio de 2010
Portugal e Grécia - uma história de amor...
Em cinzas se desfaz teu corpo brando;
E pude eu ver, oh Grécia, o doce, o puro
Lume dos olhos teus ir-se apagando!
Hórridas brenhas, solidões procuro,
Grutas sem luz, frenético, demando,
Onde maldigo o fado acerbo e duro
Teu riso, teus afagos suspirando.
Darei da minha dor contínua prova,
Em sombras cevarei minha saudade,
Insaciável sempre e sempre nova,
Té que torne a gozar da claridade
Da luz que me inflamou, que se renova
No seio da brilhante eternidade.
(Nota: trata-se apenas do Soneto de Bocage deplorando a morte de Nise, substituindo Nise por Grécia...)
Jean Claude Trichet, 3
E veio a palavra do MERCADOS segunda vez a Jean Claude Trichet, dizendo:
2
Levanta-te, e vai ao pequeno país de Portugal, e prega contra ela a mensagem que eu te digo.
3
E levantou-se Jean Claude Trichet, e foi a Portugal, segundo a palavra dos mercados. Ora, Portugal era um país muito pequeno, de três dias de caminho.
4
E começou Jean Claude Trichet a entrar pelo país caminho de um dia, e pregava, dizendo: Ainda quarenta dias, e Portugal será subvertido.
5
¶ E os homens de Portugal creram nos mercados; e proclamaram um jejum, e vestiram-se de saco, desde o maior até ao menor.
6
Esta palavra chegou também ao rei de Portugal; e ele levantou-se do seu trono, e tirou de si as suas vestes, e cobriu-se de saco, e sentou-se sobre a cinza.
7
E fez uma proclamação que se divulgou em Portugal, pelo decreto do rei e dos seus grandes, dizendo: Nem homens, nem animais, nem bois, nem ovelhas provem coisa alguma, nem se lhes dê alimentos, nem bebam água;
8
Mas os homens e os animais sejam cobertos de sacos, e clamem fortemente aos mercados, e convertam-se, cada um do seu mau caminho, e da violência que há nas suas mãos.
9
Quem sabe se se voltarão os mercados, e se arrependerão, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos?
10
E os mercados viram as obras deles, como se converteram do seu mau caminho; e os mercados se arrependeram do mal que tinham anunciado que lhes fariam, e não o fizeram.
Teorias...
Nestes artigos dei-me conta de algo em que por acaso nunca tinha pensado e que é revelador do enquadramento teórico que envolve as instituições da economia.
Sabia já que o BCE não podia comprar títulos de divida soberana dos Estados europeus, ou seja, os défices não podiam ser financiados por emissão monetária, tendo então de se financiar nos mercados financeiros internacionais, a instituições privadas.
O que eu nunca me tinha lembrado é que, se estas instituições financeiras privadas se podem financiar junto do BCE, este acaba por financiar indirectamente os Estados. A pergunta rápida então é: qual a diferença?Porque é que o BCE pode financiar instituições financeiras privadas e não os Estados, se depois o dinheiro vai ter aos Estados de forma indirecta?
Obviamente que a resposta não é assim tão difícil: o argumento é a da promiscuidade, de que os Estados iam "abusar da festa" ao ritmo dos ciclos eleitorais. Assim, tendo o dinheiro de passar pelas instituições privadas, moderam-se os Estados e a sua "ganância por poder" fica controlada.
No que isso é revelador, é no facto de que só tem efectividade se partirmos do princípio que os mercados financeiros são racionais. Só acreditando que as instituições financeiras que são intermediárias entre o BCE e os Estados funcionam de forma racional e tendente para o equilibrio.
O que esta crise mostra é que não existe qualquer lógica de equilibrio ou de racionalidade nos mercados financeiros. A finança vai e vem conforme o vento e se tiver de destruir tudo pelo seu caminho, ela destrói.
5 de Maio de 2010
um 5 de Outubro para o economista-Rei
as formas que o sistema (e a classe dominante) encontra para a sua legitimação desde sempre que ocupou os teóricos marxistas. a superestrutura, de Marx e Engels, respeitante aos aparelhos ideológicos que a burguesia controlaria (meios de comunicação social, aparelho juridico, forças armadas, religião), que foi sendo desenvolvido por muitos outros, é uma importante elaboração sobre as formas de produção ideologica e das ideias dominantes na sociedade.
nesse sentido, verificamos que o neoliberalismo dos nossos dias constroi-se muito pelo império da técnica sobre a escolha politica. e aí, os economistas e a "sua" Economia, têm sido óptimos instrumentos para assegurar o rumo deste projecto de sociedade. é desesperante perceber como o economista se tornou, de facto, "rei" (como diz Sapir) e como é sempre tratado como dono da verdade absoluta. é nestas condições que se aceita que Bagão Felix, apesar de ser das figuras mais à direita no espectro político português, seja sempre convidado da sic noticias a comentar todo e qualquer "assunto económico" enquanto "economista" supostamente independente. é pelo império da técnica que se aceita que no dia 1 de Maio o convidado a comentar a manifestação dos trabalhadores num telejornal seja o presidente da CIP. como se se considerasse já não existir luta ou interesses conflituantes na sociedade mas apenas vagas de descontentamento que até podem perfeitamente merecem a compreensão do representante dos patrões da Industria -afinal, ele só pretende a saída da crise e uma vida melhor para todos, incluíndo para os trabalhadores que emprega.
mas a verdade, é que existem e sempre existiram interesses contraditórios. e não podemos estar todos de acordo. por natureza o patrão e o trabalhador não concordarão. e essa conflitualidade naturalmente que se verifica também nas ciências sociais. ou pelo menos assim deveria ser...
talvez parte do projecto neoliberal não tivesse tão avançado se a Economia enquanto ciência não fosse tão una nas suas certezas e tão pouco plural. talvez, fica a hipótese, com a pluralidade, também o papel social do economista já não seria o mesmo - a visibilidade pública assenta em grande medida na condição de ser porta-voz dos mesmos interesses que lhe dão tanta voz.
perderá, no caminho da pluralidade, o economista a sua coroa?
Sobre a igualdade
Um livro recente promete contribuir para o debate. Em "The Spirit Level: Why Equality is Better for Everyone", editado pelo Equality Trust (link), é apresentada evidência empírica para sustentar uma relação positiva entre igualdade de rendimentos e indicadores relativos à saúde, ao ambiente ou à segurança.
Não tenho ainda o livro mas recomendo uma leitura do site, que tem imensos dados úteis. Acima de tudo, convém perceber que esta é uma questão política, pelo que a escolha do nível de desigualdade nas sociedades (que pode ser zero) não pode ser tomada com base em modelos abstractos que calculam um suposto "óptimo social".
3 de Maio de 2010
Há algum tempo...
João César das Neves deve ser o economista com mais espaço nos meios de comunicação social do país, mas até ele parece estar indignado com esta situação.
"A comunicação social apresenta-se como meio informativo e assim parece considerada pelo público. Mas de facto poucos a usam para se informarem. O que realmente compram é pensamento enlatado, opinião pronta-a-vestir. Nos jornais e telejornais obtêm-se, não dados para alimentar a reflexão, mas reflexão já cozinhada que se engole acriticamente. Para satisfazer essa procura, grande parte dos media, mantendo a ficção de meios informativos, transmitem ideias pré-fabricadas."
Eu concordo plenamente com isto e portanto, fiquei com um pé atrás - a obrigação de não tirar conclusões precipitadas levou-me a ter de ler o artigo até ao final.
"Portugal tem evidentes problemas económicos, que suscitam atenção e merecem alarme. Mas o que conta na vida não é o que nos acontece, mas o que fazemos com o que nos acontece. Perante uma dificuldade vê-se a fibra da pessoa. Ou do povo. Nada na nossa situação económica justifica uma depressão psicológica geral. Certas circunstâncias pessoais merecem desânimo devido à impotência e desamparo perante o brutal choque concreto. Mas o desalento geral face ao risco abstracto é cobarde, egoísta, oportunista e mercenário. A atitude tíbia e resmungona da opinião pública deve-se, não à crise, mas à opinião pública."
Bem, um manifesto para levantar a moral do povo ainda não chega para ser criticado. Mas de repente surge:
"Só temos défice orçamental e dívida externa pelo excesso de regalias face ao que o País produz e pode pagar. Só temos desalento e irritação por causa da ilusão de um direito a um mundo sem crises, que gera indignação perante qualquer dificuldade. Mesmo na recessão, vivemos muito melhor que os nossos pais viviam. No entanto, embalados em pseudodireitos adquiridos, balanceamos entre euforia e depressão."
Mas eis que, volto a concordar...
Bem, basicamente, concordo com quase tudo neste artigo e, gostei tanto deste artigo que vou ajudar nesta tarefa de denunciar algumas ideias pré-fabricadas que nos entram todos os dias pela casa adentro:
1 - A crise será mesmo provocada porque os trabalhadores andaram a receber aumentos demasiado avultados nos seus salários?
2 - Porque é que temos realmente uma enorme falta de produtividade no país?
3 - Quem é que realmente andou a viver acima das possibilidades neste país?
4 - "Cada um, ao seu nível, tem de suportar o sofrimento e enfrentar a dificuldade." Ou seja, "ao seu nível" significa realmente o quê?
5 - Descer o subsídio de desemprego tem que resultado real na diminuição da despesa pública?
6 - Até onde é que o sector bancário está disposto a colaborar com a austeridade?
7 - Os alemães (a sociedade alemã, não o governo) que não querem contribuir para a Grécia, não será que é porque a contribuição também será assimétrica dentro da sociedade alemã?
8 - Os gregos, que parecem estar a refilar sem razão porque andaram durante anos a comer injustamente - será que "toda" a sociedade grega comeu? Ou melhor, será que os que mais beneficiaram do devaneio orçamental são os mesmos que agora vão contribuir para a austeridade?
9 - Será que as únicas formas de combater a dívida pública são o aumento do IVA, diminuição das reformas e o aperto do Rendimento Social de Inserção?
10 - Será que os desempregados o são porque simplesmente não querem trabalhar?E antes quando tínhamos uma das mais baixas taxas de desemprego dos países desenvolvidos era porquê?
Estas são só algumas perguntas. Eu tenho a minha resposta pessoal mas acho que é boa ideia continuar à procura...
Obrigado JCN pela dica...
Não acreditem em tudo o que ouvem...
30 de Abril de 2010
Sabemos que isto está bastante mau quando...
FMI diz que "não se deve acreditar demais nas agências de rating"
A esquizofrenia dos governos e dos media é tal que tem de ser a instituição que por excelência vem aplicando o projecto de globalização neoliberal a diminuir o papel das famosas agências.
Uma critica que, por vir de onde vem, também não se percebe muito bem, uma vez que têm sido as agências que melhor vêm legitimando as politicas de congelamento de salários, de redução de subsidios e de privatizações, assim como os pactos que visam a "estabilidade" entre o centrão.
(É tudo tão deprimente que nem tento lançar uma hipotese sobre esta posição do FMI)
26 de Abril de 2010
«The smart way to keep people passive and obedient...
É impressionante a quantidade de exemplos que vemos da realidade desta frase.
A este artigo do João Rodrigues, um tal Vitor Guerra pergunta se "este quererá um socialismo real".
Tudo fica simples assim, reduzindo o debate político a uma mera escolha entre socialismo real ao estilo soviético e capitalismo neoliberal ao estilo de um paraíso inexistente mas que nos querem fazer crer ser o dos EUA e UE.
Eis que, de repente, quem defende que o Estado não deve privatizar serviços essenciais como os CTT ou a RTP fica imediatamente obrigado a defender o Gulag, o massacre de Katýn ou a invasão do Afeganistão.
Simplesmente não tem lógica, mas é assim que funciona...
Nem tudo é a preto e branco, isto não é o Benfica-Porto, não é um jogo entre equipas que estão sempre certas ou erradas. A esquerda não é refém do socialismo soviético como a direita não é só por si descendente de Adolf Hitler. São ideias que estão em discussão e, as ideias, são muito mais plurais do que nos querem fazer crer.
22 de Abril de 2010
Olhar para trás, enquanto agem à frente.
No Le Monde Diplomatique (edição Portuguesa) deste mês, vem na capa um artigo muito interessante, intitulado “O blá-blá da burqa”, que aconselho a leitura.
Este artigo demonstra como os vários governos, usam as questões sociais, única e exclusivamente para desviar atenções. Por um lado quando não são necessárias, argumentam que são demasiado “fracturantes”, e que há “ questões mais importantes”. Por outro, quando existe necessidade de agir nos bastidores, sem que haja verdadeira discussão, utilizam esses mesmos temas como isco para a esfera mediática.
Foi exactamente isto que aconteceu, no passado ano de 2009, quando o Governo apresentou o segundo Orçamento Rectificativo em Novembro.
Já desde Maio, que todos os indicadores demonstravam uma queda abrupta da receita, e que seria inevitável uma revisão nas contas do estado. Mas foi adiado para Novembro, após as eleições legislativas, como operação eleitoral, e só após o anúncio do PS, de que iriam apresentar uma lei que permitia o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Conseguindo assim desviar a atenção da imprensa.
Sempre me questionei, da minha profunda ignorância, porque é que as questões economias nunca são fracturantes? Existe uma única economia?
21 de Abril de 2010
Não admira que o I vá à falência...
Vamos sendo brindados com as opiniões mais ridículas, mal fundamentadas, desinteressantes inúteis a cada dia que corremos o risco de ler certos artigos que povoam a nossa imprensa escrita.
O artigo de Rodrigo Moita de Deus no I é de uma pobreza avassaladora.
Definitivamente, nem consigo comentar...
19 de Abril de 2010
O elevado custo da automobilidade
Desta constatação emerge a pergunta: porque é que, então, há tanta gente com dificuldades económicas que nem sequer considera em livrar-se do carro? Ou, posto de outra forma: porque é que há tanta gente que conta os cêntimos no dia-a-dia e, no entanto, é capaz de se endividar para ter um carro?
Uma boa parte destas pessoas terá carro por obrigação, pode-se argumentar. É certo que a especulação imobiliária atira uma boa parte da população para a periferia, onde os preços das habitações são mais baixos e onde o acesso a transportes públicos é fraco. Ignoremos então estes casos. Ignoremos até os casos das pessoas que têm acesso a transportes públicos mas o serviço é tão mau que poupam bastante tempo ao se deslocarem de carro, assumindo (e este é um pressuposto muito forte) que estas pessoas fizeram as contas e estão dispostas a gastar 400, 500 euros por mês para perder menos tempo em deslocações quotidianas. Vejamos então o caso daqueles que podem deslocar-se usando os transportes públicos e meios de transporte não poluentes (assentes na força das pernas) e optam por não o fazer.
Pegando num exemplo prático, o que leva um jovem precário que ganha 700 euros por mês a comprar um carro, sendo que depois de pagar as prestações do carro e da casa fica sem dinheiro para comer (ou quase)? O que torna o carro um objecto de consumo tão importante que faz com que tanta gente seja capaz de todo o tipo de sacrifícios para o obter (ou manter)?
Arrisco dizer que a explicação está na cultura da automobilidade, tão entranhada na nossa sociedade. O carro é-nos apresentado como uma manifestação da liberdade e da autonomia que ganhamos na transição para a vida adulta. Ter um carro faz, portanto, parte do processo de crescimento. Mas o carro é também uma forma de expressão da personalidade. Elementos como o design e a performance transmitem uma mensagem sobre o que somos (ou o que gostaríamos de ser) aos nossos pares. Quanto a isto, basta ver como a publicidade aos automóveis incide mais sobre a mensagem que o produto transmite que sobre o produto em si.
Em suma, o carro é um produto de consumo objecto de uma campanha de propaganda eficaz ao ponto de reduzir drasticamente a sua elasticidade-preço. O que no início era uma extravagância de ricos hoje é visto como algo tão fundamental na nossa vida como a habitação ou a alimentação. Mas a automobilidade traz sérios problemas para a vida em comunidade.
Este é um caso típico de irracionalidade do mercado. O "livre mercado" trouxe-nos cidades cheias de automóveis, com as consequências negativas que isso tem a nível de poluição, de congestionamento (logo, de tempo perdido) e de segurança. Cidades onde, em média, 1/3 do espaço disponível é gasto em infra-estruturas dedicadas ao transporte individual, em detrimento de jardins ou de espaços de convívio e lazer. Tudo para que a indústria automóvel prospere, à custa do empobrecimento da população.
Falta aqui, portanto, uma macro-racionalidade que apenas pode vir do planeamento público democrático. Urge transformar as cidades, reduzindo as distâncias das deslocações pendulares, criando sistemas de transporte público eficazes e privilegiando os modos de deslocação não poluentes (por exemplo, alargando passeios e criando ciclovias).
Esta mudança radical no modo de transporte não faz apenas sentido do ponto de vista ecológico e social (como argumenta, por exemplo, o óptimo blogue Menos um Carro). Também do ponto de vista meramente económico faz todo o sentido, visto que o custo de um passe mensal é uma fracção do custo de uma viatura própria. Este é apenas um exemplo de um caso em que vale a pena olhar além (muito além) do mercado e ver como podemos planear e construir colectivamente uma vida melhor para todos.
18 de Abril de 2010
Não é pecado, é crime
Não pretendo usar este escândalo como forma de afirmar que há algo na Igreja que faz com que os padres sejam pedófilos. Não há qualquer evidência de que a percentagem de pedófilos entre os padres seja superior à media da população, pelo que qualquer discussão sobre a ligação entre este tipo de patologia e normas internas da Igreja, como o celibato, é uma perda de tempo. Mais, admito mesmo que possam ser mais frequentes os casos de abuso sexual de crianças em escolas, orfanatos e outro tipo de instituições sem qualquer ligação à Igreja.
A questão é mesmo, insisto, a de a Igreja reagir a casos de abuso sexual de menores por padres com o encobrimento dos criminosos. Como já é comum nas instituições corporativas, sejam as igrejas, os exércitos ou as comissões de praxe, a vergonha de admitir que existem criminosos no seu seio excede a consciência cívica. Quando leio a incisiva crónica de Johann Hari, que denuncia a forma como o Vaticano andou a deslocar os padres pedófilos de um lado para o outro, garantindo sempre que as vítimas nada diziam (link), vem-me à memória o caso do Padre Frederico e da forma como o Bispo do Funchal tratou de o proteger e de assegurar a sua fuga para o Brasil, mesmo depois de ter morto uma criança.
Infelizmente, portanto, nada disto é novidade. Tal como não é novidade a associação pelo Vaticano da pedofilia à homossexualidade, uma afirmação que os dados desmentem (em Portugal, por exemplo, 83% das vítimas são do sexo feminino e 95% dos agressores são do sexo masculino, dizem os dados oficiais). Assim se resolvem dois problemas de uma vez só: evita-se discutir o encobrimento de pedófilos e legitima-se a exclusão de homossexuais da ordenação como padres.
O mais triste no meio de tudo isto é ver a forma como tantos fiéis se deixam cegar pelos dogmas e se recusam a ver o óbvio. Ainda há pouco alguns devotos, à saída da igreja, diziam para a televisão que "todos somos pecadores", como se piscar o olho à(ao) vizinha(o) fosse comparável a abusar sexualmente de uma criança. Felizmente que ainda há quem pense pela sua cabeça e não se deixe levar com tanta facilidade.
16 de Abril de 2010
E esta hein?
Tentar explicar a realidade económica com base em preconceitos e em quadros teoricos pré-fabricados para receitar os mesmos remédios de sempre não é sério. Os dogmas liberais da lógica da batata também podem ser invertidos...
15 de Abril de 2010
Bancarrota...
Em primeiro lugar, qualquer opinião dada por alguém ligado ao FMI deixa-me sempre com o pé atrás mas a minha questão hoje é outra. É outra porque eu não tenho dados, nem estudos, nem conhecimentos para refutar convenientemente a tese do Sr. Simon Johnson, nem tampouco sei se existe refutação possível ou não.
O que sei é o efeito que este artigo tem em mim e na minha percepção das coisas e, ainda, consigo imaginar o efeito que tem nas outras pessoas. Assim, o que vou fazer é uma reflexão leiga sobre este tema, mais de índole política do que económica.
Assim, parto do princípio que Portugal está mesmo em enorme risco, financiando-se à custa de um esquema em pirâmide, que "vai chegar a altura em que os mercados financeiros se vão recusar pura e simplesmente a financiar este esquema ponzi", que faltam medidas mais duras para corrigir os desequilíbrios e que só um crescimento espantoso a nível mundial e que não se perspectiva, podia tirar o país da situação em que se encontra.
Portanto, a conclusão, a partir daqui é que se exigem sacrifícios, cortes radicais na despesa, aumentos dos impostos, a um nível extremo, muito superior ao nosso PEC.
Tudo isto a ser verdade, somos confrontados com a impossibilidade de exigir sacrifícios a todos por igual: impostos às empresas reduzem a competitividade, impostos elevados sobre as mais-valias bolsistas provocam fuga de capitais - restam os cortes nos salários da função pública, nas prestações sociais e aumento dos impostos indirectos como o IVA.
Agora, a questão é: se isto tudo for realmente necessário, vamos continuar a votar nos mesmos para o nosso governo?Se é verdade que temos o país hipotecado, vamos deixar como gestor de insolvência os mesmos que nos levaram à insolvência?
Se são precisos sacrifícios, muito bem, mas então muita coisa vai ter de mudar. Os portugueses não podem deixar que lhes sejam exigidos sacrifícios gratuitamente, quando cada um desses portugueses não tem culpa do pântano em que nos deixaram décadas de governação, sempre igual e sempre no mesmo sentido.
Assim, se o medo é a fuga de capitais, nacionalizem-se empresas, lute-se pelo pleno emprego, organizem-se os gastos e melhorem-se processos em todo o lado. Se se lutar pelo pleno emprego e por medidas que permitam a estabilidade no mercado de trabalho, também os trabalhadores aceitarão melhor os tais sacrifícios. Se virem que estão a ser bem governados, aceitam os sacrifícios, se os capitais fugirem mas o país conseguir estabilizar em paz social criar-se-á riqueza.
Muito deste texto não reflecte a minha real opinião sobre este tema mas o objectivo é mostrar que, se calhar, o que precisamos é de uma revolução. Não estou a dizer que é uma revolução socialista ou comunista, mas sim uma mudança séria das coisas. Não podemos continuar pelo mesmo caminho nem com as mesmas pessoas.
Isto é o que pensará muita gente deste país e que eu próprio me sinto tentado a pensar. Não é esta a minha opinião por uma razão simples: lembro-me imediatamente que os regimes fascistas encontraram sempre o seu meio de cultura em graves problemas financeiros. Quando vejo este panorama percebo porquê. Quem depois de ler este texto não ansiou sequer por uma fracção de segundo que o salvador da pátria nos viesse salvar?
14 de Abril de 2010
esquerda e direita
"Lembro-me de Passos Coelho ter sido apelidado, há um par de anos, de "Obama português"... (a palidez deste nem importa aqui). Não deixa de ser interessante ver o que de mais relevante partilha com Obama: ambos são novos rostos para o mesmo sistema. Apenas algo que muda para que TUDO fique na mesma."
Parece-me que comparar o Passos Coelho ao Obama é exagero.
Quando analisamos programas ou medidas politicas é importante que não o façamos isolando-os/as do contexto histórico em que surgem e sobretudo da relação de forças existente na sociedade. Mais importante do que cada um defende acaba por ser aquilo que cada um pretende mudar, as politicas que implementa para tal mudança e quem enfrenta (e quem junta consigo) no processo.
E aí assistimos a um Obama que afronta grande parte da opinião pública e dos grandes interesses económicos quando propõe reformas que alargam os cuidados de saúde a 30 e tal milhões de americanos. Isto num periodo em que o defice americano é dos maiores de sempre. É verdade que ele não propõe um sistema nacional de saúde universal e antes "seguro de saúde universal". Mas por mais curto que isto nos pareça em Portugal significa, no contexto da sociedade americano, um importante processo de redemocratização e de extensão da saúde a muitos milhões trabalhadores que até agora não tinham acesso - apesar de não gostar da forma como esta reforma é implementada, não se pode dizer que "tudo" fica na mesma.
O patronato e os grandes interesses não querem nenhuma reforma fiscal que os ponha a eles e ao povo americano a pagar impostos em torno de um direito. Não apenas pelos seus interesses económicos taxados mas também porque estas medidas transportam consigo algumas ideias que podem começar a fazer caminho: esta expansão dos direitos de saúde chegam a tanta gente que certamente transformarão o senso comum dominante no que toca à importancia de pagar impostos para que os direitos sociais sejam assegurados.
Já Passos Coelho é o tipo de politico que recusa a realidade quando ela não bate certo com o seu ideal de sociedade. Passos Coelho acha que o desemprego diminui se se desregulamentar ainda mais o trabalho, apesar de empiricamente se verificar que o intenso processo de precarização da força de trabalho (1,2 milhões de recibos verdes significa 1,2 milhões de trabalhadores que podem ser despedidos na hora, sem qualquer tipo de direito associado, quer sejam férias, limite de horas de trabalho, subsidio de desemprego ou de maternidade, sem que esse tempo seja contabilizado para a reforma apesar do recibo verde pagar impostos) não fez aumentar o emprego ou a competitividade, bem pelo contrário. Quando lhe perguntam, continua a afirmar que o mercado de trabalho português é "rigido", apesar dos estudos comparativos da OCDE indicarem o contrário. Assim como Socrates, é o politico que o patronato português procura para defender os seus interesses.
Se for eleito, obviamente que continuará o corte aos direitos laborais assim como as privatizações dos serviços públicos, em busca de uma competitividade económica que, no país com mais assimetrias sociais, apenas resultará na desigualdade e numa democracia muito mais frágil.
Apesar do Marketing politico e da imagem bem que os dois bem trabalham, não é possível comparar Passos a Obama.
Um é de esquerda porque dirige um processo politico de igualização nos cuidados de saúde e o outro é de direita porque transporta os valor da liberdade e da meritocracia, por exemplo na proposta de flexibilização do mercado de trabalho.
Edit: o anterior titulo desta posta "diz-me com quem te juntas e dir-te-ei qual a tua politica", feito à pressa, teve por razões óbvias de ser alterado para um menos mau.


