28 de Outubro de 2009

Fora-de-jogo

Muitos amigos me perguntaram a opinião acerca do "Prémio Nobel" da Economia deste ano, atribuido a Elinor Ostrom e a Oliver Williamson.

Respondi sempre que não conseguia opinar sobre o assunto, algo que nenhum dos meus amigos entendia. Como podia eu, estudante de Economia, nunca ter ouvido falar das pessoas que parecem estar na vanguarda da Ciência Económica?

Entretanto comecei a ler, em diversas fontes, alguns tópicos acerca da atribuição deste prémio. Ouvi então dizer que se tratavam de dois economistas Institucionalistas, ou seja, que estudam a economia de uma forma abrangente como sendo formada por diversas instituições em interacção e com dinâmicas próprias (pelo que percebi), sendo o mercado apenas uma destas instituições, tal como o Estado.

Mas, os meus amigos continuaram a perguntar e eu vi-me na tarefa complicada de lhes explicar que não sabia nada de especial acerca de institucionalismo. Que actualmente se atribui o mais prestigiado prémio da Ciência Económica a representantes de uma tendência teórica da qual nunca ouvimos falar ao longo de uma licenciatura em Economia. Tudo o que já tinha ouvido falar sobre institucionalismo veio de fora do plano curricular, veio de leituras complementares que fiz por conta própria ou veio de algum professor que no final da aula me explicava que existia mais qualquer coisa para além daquilo que era obrigado a ensinar-nos.

"Afirmou-se com este prémio que a Economia só se engrandece se for uma disciplina aberta, interna e externamente", diz-nos uma série de economistas no Público, há algum tempo atrás.

Quanto mais tempo continuaremos fechados?

25 de Outubro de 2009

Uma boa aula de Economia...

...que tanta falta faz nas nossas faculdades...

Fernando Nobre no III Congresso Nacional de Economistas.

21 de Outubro de 2009

Convergência ao Centro? Não, obrigado

"e verificada a indisponibilidade tanto do BE como do PCP para qualquer entendimento com incidência governamental ou parlamentar"

Esta frase de André Freire (politólogo e bloguer no Ladrões de bicicletas) é uma frase traiçoeira.

A indisponibilidade, intransigência e sectarismo para um entendimento entre os partidos da esquerda tem sido sempre por parte do PS. Que margem de manobra para negociar deixa o PS quando no encontro com os partidos da oposição, é Vieira da Silva (novo ministro da economia), ministro do código do trabalho mais explorador e contestado de sempre, quem acompanha Sócrates?

O PS esteve sempre indisponível para mudanças fundamentais para o nosso país, em matéria de política económica ou do código laboral, só para dar dois exemplos. O país precisa de soluções governativas de esquerda para os seus problemas mas certamente que não precisa de uma esquerda envergonhada.

O Apelo para um compromisso à esquerda lançado nos últimos tempos e que visava a convergência entre o PS, PCP e BE, falha em perceber o seguinte:

um PCP e um BE como partes fracas no hipotético governo e incapazes de ditar as políticas que atacam de frente os grandes problemas sociais (desemprego, precarização do trabalho, pobreza) levaria à perda da base social de apoio da esquerda.


É preciso não esquecer que a esquerda tem feito um caminho muito importante e tem tido das maiores votações de sempre. A esquerda (BE+PCP) cresceu de 13,9 em 2005 para 17,7% em 2009, com um pico de 22% nas europeias 2009 contra 14% nas de 2004. Portugal é o país da UE em que a esquerda tem maior expressão eleitoral, o que apenas prova o acerto estratégico.

A par da evolução eleitoral nestes últimos anos, está a crescente capacidade de mobilização dos trabalhadores e as também relevantes lutas sociais dos novos movimentos que vão emergindo, em luta contra a avaliação dos professores, contra a precariedade, pela igualdade e liberdades individuais, etc... A governação de esquerda tem de partir de uma força social de esquerda e bem alicerçada na sua capacidade reivindicativa.
Convergência ao centro entre os partidos da esquerda, não obrigada.

20 de Outubro de 2009

Microcrédito: cura para a pobreza ou placebo?

Pessoalmente, agrada-me a ideia do micro-crédito, na medida em que pode permitir que algumas pessoas com capacidade empreendedora ou um talento possam lançar o seu pequeno negócio e assim romper o ciclo da pobreza. O modelo de Mohammad Yunus, fundador do Grameen Bank, o percursor do micro-crédito, parece ser interessante, a avaliar pelo que se diz nas notícias, sobretudo pelo empoderamento das mulheres. Mas daqui até usar o micro-crédito como modelo para acabar com a pobreza vai uma distância considerável.
A pobreza (tal como a degradação ambiental) é um subproduto do sistema capitalista. Qualquer solução para a pobreza que não coloque em causa os mecanismos produtores e reprodutores de desigualdades não passa de uma panaceia. Na melhor das perspecivas, como é o caso do micro-crédito, pode ajudar a retirar muitas pessoas da pobreza, sem que, contudo, o número total de pobres diminua significativamente. Na pior, como é o caso de campanhas vazias como o "Levanta-te contra a pobreza", são absolutamente ineficazes e servem apenas para desviar as atenções daquilo que é essencial.
Investigadores do Jameel Poverty Action Lab, do MIT, resolveram meter as mãos à obra e ver se, de facto, o micro-crédito pode ser uma cura para a pobreza. Os estudos, ainda não publicados, concluem que o microcrédito não oferece um meio para sair da pobreza. Oferece a alguns (os mais empreendedores) uma forma de começar o seu negócio, podendo ter efeitos multiplicadores nas micro-empresas existentas, mas os ganhos para os devedores, medidos pelo rendimento, consumo, saúde e educação são negligenciáveis. Isto acontece em parte porque a maioria dos novos micro-empresários gastam o dinheiro que receberam a pagar despesas menores, a pagar dívidas ou até em consumos supérfluos. Os estudos concluem ainda que o microcrédito nada faz para reduzir as desigualdades de género, podendo até servir para as reforçar.
Os resultados, curiosamente, vão de encontro à minha intuição: de facto, o micro-crédito pode ter um papel a desempenhar no combate à pobreza mas esse papel será reduzido.
Outra interessante conclusão é que a ideia de que os habitantes de zonas pobres são potenciais empreendedores aos quais apenas falta um pequeno empréstimo para sair da pobreza é um mito. Na realidade, a criação de um micro-negócio é algo habitual nestas zonas, onde há pouco emprego, assim como é habitual a falência destes negócios (mesmo com o micro-crédito, aliás, as taxas de juro são elevadíssimas). O que falta nos países sub-desenvolvidos são empregos estáveis e bem remunerados e empresas capazes de os fornecer (as quais dificilmente serão micro-empresas).
História completa no The Boston Globe.

18 de Outubro de 2009

A triste história da ciência económica



Em "Turbulência Na Economia", Francisco Louçã propõe-se debater os ciclos de crescimento (segunda parte), dar novas perspectivas sobre Shumpeter e Keynes (terceira parte) e a demonstrar a não linearidade dinâmica das economias (quarta parte).

Mas a primeira parte, a que me concentrei mais até agora, é mesmo extraordinária. Trata-se de uma análise epistemológica destrutiva sobre a forma como a ciência económica, mais concretamente a ortodoxia neo-clássica foi evoluindo até aos nossos dias. Uma progressão na base da sapatada teórica (autenticamente…) e que envergonha e entristece qualquer um que alguma vez gastou tempo de estudo e trabalho para compreender o que (e agora sim faz sentido) nunca fez nenhum sentido.

Nesta primeira parte é feita uma análise muito extensa sobre como a teoria neo-clássica, especialmente na revolução marginalista, se fundou a partir de uma base newtoniana/mecânica, que foi incorporando modelos provindos da física energética e desenvolvida no paradigma positivista. Na tentativa de uma negação cabal da metafísica, procurou a legitimação cientifica nos quadros teóricos em que operavam as ciências naturais:

De facto a metáfora física é o alicerce de todo um corpo de teorias, de modelos e de técnicas que dominaram a ciência económica até hoje.
No que diz respeito ao que está a ser aqui analisado, a analogia física estabeleceu um novo fôlego da metodologia positivista, aumentando substancialmente e sofisticando a formalização matemática da economia, que não tem reconhecido nem aceite qualquer necessidade de concessões à plausibilidade ou ao realismo das hipóteses. O instrumentalismo é a consequência e o herdeiro desta concepção, e tem sido dominante na teorização económica durante o último século."

Ora nem mais. Como refere Louçã, esta procura de um “cientismo” para a economia nas bases das ciências naturais andou a par de uma reflexão epistemológica que apenas se desenvolveu tardiamente. O espírito iluminista que norteia o avanço das ciências modernas foi absolutamente traído e a Economia empurrada novamente para o campo da metafísica.

Um livro riquíssimo, a ler.

17 de Outubro de 2009

A necessidade da inconformação

O Tiago acertou na mouche: como podemos nós satisfazer-nos com um sistema que atira a maior parte da humanidade para a miséria? Recentemente, a Rede Europeia Anti-Pobreza denunciou que 18% dos portugueses são pobres, um número na linha dos estudos económicos realizados pela Prof. Leonor Vasconcelos (Público). Com a crise e o sobre-endividamento, a tendência é para piorar.
Ricardo Reis diz-nos que qualquer outro sistema seria ainda pior que este. Um professor que conheço, da mesma área de investigação, dizia num debate que sempre que a humanidade tentou criar um céu na terra criou um inferno. Mas o inferno já existe, para quem chega ao fim do dia com a barriga vazia porque não tem dinheiro. Seremos assim tão incapazes de conseguir melhor que isto?

15 de Outubro de 2009

Um desabafo...

Não vi o filme de Michael Moore em causa logo, não sei os argumentos que usa para criticar o capitalismo nem se são sérios ou não. Queria apenas reforçar a minha opinião em relação a algo que Ricardo Reis expressa como muitos outros economistas pelo mundo fora: "Desde muito cedo, na escola, todos aprendemos que por muitos defeitos que tenha a democracia é o menos mau dos sistemas de governo. O capitalismo também é o menos mau dos sistemas económicos".

Quando Ricardo Reis diz que o futuro promissor de Michael Moore é o passado falhado de muitos países, sou capaz de imaginar que não esteja errado, mas o erro de Ricardo Reis é o de achar que por o capitalismo ser o melhor que conhecemos, não devemos procurar mais que isso.

Por isso é que no Ocidente é possível alguém pensar que chegámos ao fim da história com o fim da URSS. Mas esquecemo-nos das pessoas para quem o fim da história significa sujeitarem-se à pobreza absoluta sem perspectivas de melhoria nas suas condições de vida.

Se Moore vem buscar velhos dogmas falhados do Socialismo, não sei. Sei apenas que o actual estado das coisas não me deixa satisfeito, não me pode deixar satisfeito. Então é para isso que me servem as velhas teorias, os velhos escritos de Marx ou Proudhon, Bakunine e Kropotkine, Saint-Simon ou Owen, Veblen ou Keynes.

Por mais que a URSS tenha sido uma desilusão, deve fazer-nos pensar. Não podemos aceitar que não existe melhor. Não podemos fechar-nos no comodismo.


14 de Outubro de 2009

Mercado bolsista valoriza rent-seeking

"A Mota-Engil acumula uma valorização de 87,28% este ano, tendo subido 25% só nas últimas três semanas. A impulsionar as acções da empresa esteve a eleição do Partido Socialista nas legislativas e a eleição do Brasil para receber os Jogos Olímpicos de 2016." - Jornal de Negócios (link). Retirado do Activismo de Sofá.

2 de Outubro de 2009

O futuro da economia perante a crise

No último número da Real Economics Review, uma revista que aconselho vivamente a quem pretende ter uma visão diferente sobre questões económicas de economistas prestigiados, Luigi Spaventa responde à questão: perante a crise, podemos dizer que a economia falhou? (texto aqui) Esta foi a questão que esteve na base dos dois manifestos que já aqui divulgamos (aqui e aqui) e continua a ser premente.
Spaventa assinala, com razão, que é irrelevante atacar os economistas por não terem previsto a crise. Os sismógrafos, com todo o seu aparato técnico, não conseguem frequentemente prever com precisão os sismos e tsunamis, porque deveriam os economistas ser capazes de prever com exactidão o futuro, perante uma sociedade em constante mudança? Spaventa aproveita então para criticar aqueles que, sem quaisquer conhecimentos de economia, aparecem agora a dizer “eu bem que avisei”, como se as profecias de desgraça pudessem estar ao nível de diagnósticos bem documentados e fundamentados.
Mais relevante é se os economistas foram capazes de perceber que o sistema económico se encontrava numa trajectória insustentável. A resposta é não. Salvo algumas excepções (como Nouriel Roubini), os economistas continuaram a usar modelos macroeconómicos inadequados. Como resultado, encararam a desaceleração do crescimento económico no segundo semestre de 2007 como transitória.
O state-of-the-art dos modelos macroeconómicos, explicava-me um professor há pouco, são os modelos Dinâmicos e Estocásticos de Equilíbrio Geral. Mas, assinala Spaventa, estes modelos, apesar de contar com boas bases microeconómicas (na base do homo economicus, claro), são incapazes de incorporar ciclos de crédito e deslocações financeiras. Concretamente, assume-se que os activos financeiros flutuam em valor de acordo com o funcionamento de mercados eficientes e de informação completa, sem falhas de coordenação ou problemas de insolvência. Como assinala Paul Krugman, estes modelos são “espectacularmente inúteis na melhor das perspectivas, e positivamente maléficos na pior”.
Aqui ouso acrescentar que a fé no mercado livre e desregulado ajudou a que estes modelos inadequados continuassem (e continuem) a ser utilizados. O autor reconhece, aliás, que os economistas que ousaram colocar a hipótese de que a desregulação dos mercados financeiros nos iria conduzir a uma crise foram vistos como “aquelas velhas tias chatas que encontram sempre motivos para resmungar nas festas de família” pelos economistas que dominavam as universidades e instituições como o Fed e o FMI. Spaventa estabelece ainda um paralelo entre os economistas ortodoxos e um filósofo de um conto italiano do século XIX que, não conseguindo classificar a peste segundo a lógica aristotélica, proclamou que a peste não existia, acabando por morrer dela.
Se virmos as coisas por este prisma, não é difícil compreender como conceitos como risco, incerteza e insolvência raramente se encontram em artigos macroeconómicos. A relação entre a falha na teoria e o surgimento de uma crise não pode ser estabelecida de forma inequívoca mas, como conclui Spaventa, a maioria dos contribuiu para a crise, na medida em que a sua doutrina ofereceu uma justificação moral para a desregulação do sector privado e a negligência dos reguladores.

1 de Outubro de 2009

Eu já assinei...

http://www.compromissoaesquerda.com/

Embora partilhe de grande parte das dúvidas que o Daniel Oliveira levanta aqui.

29 de Setembro de 2009

Notícias do mundo capitalista...

"Já se suicidaram 24 trabalhadores da France Telecom"

24 de Setembro de 2009

Mantenham os bónus e deixem os accionistas decidir...

É um artigo de opinião do Jornal de Negócios de hoje, que critica as intenções de diversos governos de limitar os bónus aos gestores de bancos e afins.

Por agora limitar-me-ei, até por motivos de falta de tempo, a transcrever algumas frases deste artigo, que mais tarde terei todo o gosto em comentar.

"Um pouco por todo o mundo, os bancos têm sido criticados pelo seu papel na crise financeira." mas "a realidade é que os banqueiros pagaram a sua parte, (...) ninguém perdeu mais nesta crise do que os CEO dos bancos em apuros, de par com os seus accionistas, Richard Fuld, CEO do Lehman Brothers, terá presumivelmente perdido mil milhões de dólares". "Como diz o ditado, «if you pay peanuts, you get monkeys» (...), não podemos impedir que se recompensem os melhores..."

Concluo apenas que não sei se resolve grande coisa limitar os prémios dos CEO, por isso, neste artigo, o que tem relevância para mim é uma certa forma de olhar o mundo expressa nestas citações.

PS: O referido artigo ainda não se encontra online no site do JdN, caso o encontre, indicarei o link para este.

22 de Setembro de 2009

Coisas que não entendo na Economia I

Ouvimos constantemente dizer que o objectivo de obtenção de lucro é o que faz a economia girar, até aqui é fácil de entender, já dizia Smith que é pelo interesse próprio de cada agente económico que se atinge a riqueza das nações...

A dúvida é esta: Porque é que ninguém se lembra de explicar nos jornais que o lucro é exactamente a medida de ineficiência de uma economia e que quanto maior é este, mais longe estamos dos modelos utópicos da concorrência perfeita? Foi o que aprendi a Microeconomia I - Lucro = Ineficiência.

Ou seja, a conclusão é esta, a economia simplesmente dirigida para a obtenção de lucro não tende para a eficiência porque os pressupostos da concorrência pura e perfeita são completamente irreais, tão ou mais utópicos como o socialismo utópico. No mundo real, a busca incessante de lucro não tende para Preço = Custo Marginal, mas sim para maiores desigualdades, isto porque, produtos mais ou menos homogéneos, empresas mais ou menos pequenas e mais ou menos incapazes de influenciar preços e informação mais ou menos igual para todos os agentes não é mais ou menos o mesmo que produtos homogéneos, empresas pequenas incapazes de influenciar preços e informação igual para todos os agentes, mas é antes, completamente diferente.

Repetirei sempre que, para mim, a única virtude do capitalismo, e que o mantém vivo, é a capacidade de conseguir revelar as ineficiências que tem ao nível social longe do seu centro de decisão, em pessoas e locais a quem nem sequer é dada a possibilidade de pedir um sistema mais eficiente também para eles...

17 de Setembro de 2009

Rescaldo do debate Sócrates-Louçã - parte II

José Sócrates continua a insistir na manutenção dos benefícios fiscais para os PPRs. Nas suas palavras "os PPR devem ser estimulados pelo Governo e não devemos ter uma atitude penalizadora perante as pessoas que livremente escolhem não os serviços públicos mas outros serviços" (link). Passando por cima da distinção entre penalizar e não beneficiar, vejamos qual é a rendibilidade de um PPR. Segundo o Jornal de Negócios, "A maioria dos aforradores que investiu frequentemente nos planos de reforma teve resultados negativos nos últimos seis anos" (link).
Seleccionando nove dos principais PPR's disponíveis no mercado, o Jornal de Negócios conclui que as rendibilidades anunciadas pelos bancos estão muito distantes das reais, dado que excluem comissões e são válidas apenas para o primeiro ano. Na realidade, a rendibilidade média destes PPR's foi de apenas
-0,19% (!) nos últimos seis anos, rendendo o melhor PPR uns míseros 0,08% por ano, muito abaixo da taxa de inflação.
Mas, no caso de os detentores de PPR's ainda estarem a hesitar se hão de entrar em depressão, o jornal avisa ainda que estes cálculos não consideram os PPR's que foram descontinuados por terem resultados péssimos. Por exemplo, o
Santander Poupança Premium FPR apresentou uma perda anual de 24,54% até ao início de Setembro. Para mais, às rendibilidades apresentadas há que subtrair a eventual comissão de resgate e os impostos a pagar.
Se o Governo quer incentivar a poupança, e acho bem que o faça, deve fazê-lo pela dívida pública. Quando se reduz a taxa de juro dos certificados de aforro, um instrumento de poupança isento de risco, mas simultaneamente se dão benefícios fiscais à constituição de fundos de poupança dependentes do casino da bolsa enviam-se os sinais errados à população. A banca agradece mas os cidadãos não.

12 de Setembro de 2009

A brincar, a brincar, olha que nem sei se não compensaria...

"Fica apenas o exemplo das nacionalizações, o caminho certo para destruir o país e que, só contabilizando a PT, a GALP, a EDP, o BES, o BCP e o BPI, custaria a preços de mercado qualquer coisa como 40 mil milhões de euros. Será que queremos pagar esta factura?"

Deixando de parte a questão da integridade jornalistica no tratamento desta noticia em que se dá conta de uma sondagem eleitoral, concentro-me noutra questão:

Se hipotéticamente (porque não é a realidade) algum partido que concorresse às eleições tivesse a intenção de, na condução da política economica, nacionalizar as instituições a que a noticia faz referência, será que seria mesmo um mau negócio para o estado?

É que se atendermos aos lucros de 2008:

Lucros PT 2008 - 6734 milhões €
Lucros GALP 2008 - 478 milhões €
Lucros EDP 2008 - 1212 milhões €
Lucros BES 2008 - 404 milhões €
Lucros BPI 2008 - 150 milhões €
Lucros BCP 2008 - 201 milhões €

reparamos que o investimento de 40mil milhões para lucros anuais de 9,179 mil milhões significa, na verdade, que em 4 anos e meio está recuperado o investimento.

A verdade é que este é um deslize inaceitável por parte de um jornal que tão bem cumpre a agenda liberal como o Diário Económico: colocar a questão das nacionalizações pela via do défice é fraquinho e não o que se espera de um jornal de referência para a direita.

Permito-me fazer lembrar aos jornalistas do Diário Económico que aquilo que deveriam ter dito era que o estado é mau gestor por natureza porque a afectação de recursos é menos eficiente e que a livre iniciativa e ambiente concorrencial promovem a produtividade e como consequência os baixos preços.

São essas as ideias que tanto tempo levaram a fazer caminho e a transformá-las em dogmas reproduzidos desde as salas de aula até ao telejornal generalista.

É que se por acaso tentarem construir argumentário pela questão do défice e da viabilidade económica desta operação ainda arriscam a que lhes façam uma conta de merciaria como a que foi feita em cima, ou que lhes seja perguntado sobre os preço de venda da GALP a Américo Amorim. Ou porque razão é que todos aqueles lucros não estão a financiar o defice e as políticas de educação, de saúde e de emprego, e porque é que actualmente esse financiamento se faz quase exclusivamente a partir dos impostos que, já agora, os liberais tão pouco prezam e tão baixinho os desejam, por causa da competitividade da economia nacional e tal...

11 de Setembro de 2009

Rescaldo do debate Sócrates-Louçã

O debate entre José Sócrates e Francisco Louçã (disponível aqui) foi interessante sobretudo porque as questões mais prementes, relacionadas com a economia, foram capa dos jornais nos dias seguintes. Destaco três.
Sócrates mentiu, e continua a mentir, pois afirma que o Bloco de Esquerda defende a nacionalização da banca, dos seguros e da energia. É falso, o BE apenas defende a nacionalização da EDP e da GALP, como forma de recuperar os ganhos milionários perdidos com a privatização e de assegurar uma estratégia para a energia assente em critérios de sustentabilidade ambiental e justiça social. Quanto à banca e aos seguros o que o BE defende é que as empresas públicas, como a Caixa Geral de Depósitos, devem ter uma política de crédito que responda às necessidades da nossa economia em tempos de crise. A mim parece-me que isto faz todo o sentido, dada a enorme importância estratégica que tem quer o sector energético quer a política de crédito.
Sócrates atacou ainda o BE (vídeo aqui e resposta de Louçã aqui) por defender o fim dos benefícios fiscais para despesas de saúde, educação e Planos Poupança Reforma (PPRs). Aqui há dois casos diferentes. O primeiro é o das despesas de saúde e educação. Convém dizer que o que está em causa é a manutenção de benefícios fiscais a quem, tendo disponível o serviço público para satisfazer as suas necessidades, opta pelo privado. Não faz qualquer sentido que enormes montantes dos nossos impostos sejam todos os anos desviados para o financiamento indirecto da actividade de privados, beneficiando podem pode pagar estes serviços. A solução é injusta socialmente porque prejudica os mais pobres - as receitas que adviriam do fim destes benefícios fiscais poderiam ser aplicadas na redução do IRS nos escalões mais baixos, beneficiando quem usa os serviços públicos e vê os seus impostos a serem aplicados em benefícios para quem não os usa.
A questão dos PPRs é diferente e tem a ver com a lógica de o Governo financiar a especulação bolsista. Não faz qualquer sentido também que o investimento em PPRs, uma solução não acessível aos mais pobres para o complemento de reforma, possa ter benefícios fiscais - isto já dizia Bagão Félix, essa relíquia do mausoléu do PP. Por outro lado, se queremos incentivar a poupança podemos fazê-lo subindo as baixíssimas taxas de juro dos certificados de aforro, tão penalizados por este Governo. Apoiar soluções de poupança que vão transferir mais dinheiro para a banca para a especulação bolsista do costume e que colocam as reformas de tanta gente nas mãos do casino da bolsa é uma opção errada do ponto de vista económico.
Mas há ainda uma questão lateral a tudo isto que é a da pertinência dos benefícios fiscais. Como sabe qualquer pessoa que já pagou IRS, o que nós deduzimos é condicionado pelo que descontamos. Quem ganha pouco desconta pouco, logo pode deduzir pouco. De nada vale a uma pessoa poder deduzir 500€ em despesas de educação e saúde, por exemplo, quando apenas tem 200€ a pagar. Os bens e serviços essenciais devem ser garantidos à população através do seu fornecimento gratuito ou através do seu subsidiamento, não através de um emaranhado de benefícios fiscais que fazem a delícia dos contabilistas que ajudam os mais ricos a pagar o mínimo possível de impostos.
A terceira questão colocada foi a da construção da auto-estrada Oliveira de Azeméis/Coimbra. Louçã denunciou que o contrato realizado com a Mota Engil de Jorge Coelho já tinha uma derrapagem orçamental de 500 milhões de euros. Sócrates insistiu que a decisão ainda não estava tomada. De facto, logo no dia seguinte ficamos a saber que afinal o concurso público havia sido anulado. Mas o BE logo reagiu mostrando que somando as derrapagens orçamentais dos outros concursos para concessões de auto-estradas tínhamos um desperdício de 689 milhões de euros (ver aqui).
Nos dias seguintes Louçã foi refinando o seu discurso, explicando melhor o que queria dizer nestas questões. Sócrates, por seu lado, continua a bater na mesma tecla, esperando que uma mentira repetida 1000 vezes se torne verdade. Com esta estratégia, conseguiu até agora dominar os debates em que participou, evitando responder pelas más decisões deste governo. Veremos em breve se essa estratégia dá frutos nas eleições.

8 de Setembro de 2009

É para isto que serve a economia?

Bjorn Lomborg ficou conhecido por usar os seus conhecimentos em estatística para manipular os dados relativos a questões ambientais como forma de nos convencer que os problemas ambientais são bem menos graves que o professado pelos ecologistas. O seu mais recente livro "Cool it" repete a fórmula conhecida de Lomborg ao seleccionar cuidadosamente os dados mais convenientes com a tese que se pretende demonstrar (neste caso, que o aquecimento global será um problema de pequena importância), mesmo quando estes dados foram desmentidos por estudos mais recentes.
Agora, Lomborg lançou um relatório onde se hierarquizam as várias soluções para o aquecimento global. Como medidas prioritárias, surgem medidas de geoengenharia. Vejamos o que temos em primeiro lugar.
O think tank Copenhagen Consensus Center defende que o investimento mais importante a realizar neste momento é a construção de uma frota de navios que atirem água do mar para o ar. Desta forma, promove-se a formação de nuvens nos oceanos, o que permite que mais radiação solar seja reflectida. Se tudo correr bem, a temperatura média desce.
Se tudo correr bem, claro. Mas a verdade é que não sabemos quais os resultados de uma experiência como esta, já que há ainda muitas incógnitas sobre a influência das nuvens sobre a temperatura global. Por outro lado, esta solução apenas resolve o problema da temperatura, quando as alterações do clima vão muito além desse problema.
Uma das consequências do aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera é a acidificação das águas dos oceanos, à medida que os oceanos absorvem maiores quantidades deste gás com efeito de estufa. A alteração do ph das águas irá colocar em perigo quer os recifes de coral quer o plâncton, ou seja, a base de toda a vida nos oceanos.
Este é apenas um exemplo possível dos enormes disparates que este relatório contém. Mas o mais inacreditável é que o relatório foi supervisionado por cinco economistas famosos, três dos quais laureados com o chamado Nobel da Economia. Assim a análise custo-benefício serve para legitimar políticas que colocam em causa a sobrevivência da nossa civilização. É para isto que serve a economia?

31 de Agosto de 2009

Redistribuição de rendimentos à PP

Paulo Portas afirmou que pretende aumentar as pensões dos idosos, reconduzindo os fundos atribuídos ao Rendimento Social de Inserção. É esta a política social do PP: retirar dinheiro aos pobres para dar aos pobres.

26 de Agosto de 2009

Mais uma vez, o I

Dava para fazer um blogue inteiro só para comentar as coisas absurdas que aparecem todos os dias no I.

Portanto, se bem entendo, quando os ricos empresários vendem aos pobres chama-se negócio, mas o recíproco é exploração?

24 de Agosto de 2009

Mais uma volta, mais uma viagem

Os bancos de investimento estão ocupados neste momento a juntar as hipotecas arriscadas em novos fundos de investimento, categorizados como AAA (os mais seguros). Deja vu? Claro. Foi exactamente este tipo de negócio que nos levou à crise em que nos encontramos. De onde se conclui que as promessas de regulação dos mercados financeiros não passavam de (mais) mentiras.
A notícia é do Huffington Post.

A ignorância na arrogância...

Por pouco cheguei a pensar que este artigo de João César das Neves era dirigido a este humilde espaço da blogosfera, tal não é o número de vezes em que crítica os Ignorantes que põe em causa o sistema económico e a Economia.

Ora, os críticos são ignorantes e, por serem ignorantes, são também arrogantes. João César das Neves é um especialista, e por ser especialista, não é ignorante, e pode chamar ignorantes a toda a gente sem ser arrogante.

Mais fácil é perceber a sua definição de ignorante: ignorante é todo aquele que pensa de uma forma diferente daquilo que ele acha inteligente, como Manuela Ferreira Leite também raciocina.

Mas é interessante a forma como a própria tese do artigo tira toda a seriedade ao argumento. A questão é simples, alguém que afirma "A realidade ultrapassa sempre a nossa capacidade de compreensão. A verdade é infinita" mas depois constata com toda a certeza possível que "É evidente que se pode e deve corrigir vícios de regulamentos, bloqueios de mecanismos, erros e crimes de responsáveis. Mas isso nada tem a ver com mudança do sistema, porque este é o único que funciona". Obviamente que na sua profunda sabedoria, João César das Neves sabe que não existe mais do que aquilo que consegue ver.

Parece não se lembrar que o capitalismo também não surgiu de uma forma dominante e não teve também a resistência daqueles que estavam acomodados na altura. O Capitalismo foi revolucionário quando surgiu e, com isto, até Marx concordaria.

César das Neves não é um capitalista nem neoliberal, é apenas comodista como tantos outros. Porque acha ter descoberto um sistema que é o melhor dos que já foram experimentados, e fechou os olhos ao que quer possa aparecer de novo.

Outro dos pontos a reter é a reforçada comparação entre a economia e a física. "
Como a erupção de um vulcão não contradiz, antes confirma, a lei da gravidade, também os fenómenos recentes só provam da eficácia dos mercados, até durante um terramoto". Sou capaz de aceitar a comparação por agora, mas pergunto o que pensaram os cientistas físicos quando um cientista qualquer ousou pôr em causa as leis de Newton e apresentar a teoria da relatividade?

Pois é, foi o mesmo cientista que afirmou que o cientista era como um artista, a subjectividade está sempre presente...

23 de Agosto de 2009

A Liberdade como bem escasso...

Ao ler mais um editorial do I fico perturbado com a forma como algumas pessoas de Direita nos tentam ensinar a ser Esquerda.

Fala-se que a Esquerda devia lutar, não pela igualdade em relação aos meios de produção mas sim pela igualdade de oportunidades. Em editorial anterior, Martim Avillez de Figueiredo também referia o mesmo em relação à proposta de Obama para o novo Sistema de Saúde dos EUA.

O vício deste argumento é facilmente desmontável.

Começo por apresentar a Liberdade como um bem escasso. Qualquer pessoa formada em Economia lembra então a mais conhecida definição da Economia como a ciência que estuda a forma como os agentes alocam recursos escassos. Será portanto a Liberdade um bem económico. Isto porque existe um princípio conhecido à séculos e que se mantem sempre actual e que ensinamos a todas as nossas crianças: "a nossa liberdade acaba onde começa a do outro".

Isto porque a Liberdade em si é um termo abstracto, a Liberdade consiste na possibilidade de realizar algo (ou ter, ou dizer, etc...) segundo a nossa própria vontade, mas esse realizar afecta terceiros. A minha liberdade para comer batatas diminui as batatas que o meu vizinho pode comer. Como resposta a Martim Avillez de Figueiredo, a minha Liberdade para ter seguro de Saúde privado e ter filhos em Colégios Privados reduz a Liberdade de outros para o fazer. Assim a Liberdade é um bem escasso porque está, por natureza, indexada a bens escassos.

Assim, impostos, sistemas públicos de saúde, segurança social e tantas outras coisas que os amigos de Direita tanto abominam, são apenas formas de oferecer a outros a hipótese de exercerem de uma maior Liberdade. Infelizmente isso tem de ser à custa da Liberdade de outros, que a têm em muito maior quantidade.

A única lógica que pode sustentar este pensamento de Direita é a ideia que num sistema concorrencial, quem tem maior liberdade, é porque a merece, ou seja, é o mérito que lhe permite adquirir essa Liberdade. Mas como Martim Avillez de Figueiredo consegue concordar, existem factores arbitrários que permitem esse aumento de Liberdade, independentes do mérito ou demérito de alguém.

Assim, no fundo a questão em torno da Liberdade torna-se igual a qualquer outra entre Esquerda e Direita, ou seja, a Direita pretende uma Liberdade não igualitária, dependente do mérito de cada um (já têm um avanço, a ideia de igualdade de oportunidades, que não percebo como conseguem conciliar com as dinastias mercantis) e para a Esquerda a Liberdade deve ser igualitária, e indexada a bens e a actos, deve ser redistribuída.

17 de Agosto de 2009

A crise e os não-economistas

Durante esta crise já ouvi uma série de vezes a crítica ao facto de "toda a gente" ter uma opinião acerca dela e toda a gente ser chamada a expressar essa opinião. O argumento é simples:

- A economia é uma ciência como qualquer outra, (medicina, por exemplo) e como tal, deve ser deixada a quem entende realmente o seu método e os seus processos. Esta crise não põe nada disso em questão porque afirmá-lo era o mesmo que dizer que a "medicina não é ciência porque ainda não se descobriu a cura para a SIDA".

- De seguida, reforça-se com um exemplo: "os economistas não são chamados para dar opiniões a um neurocirurgião sobre como fazer uma qualquer operação ao cérebro".

- Por último remata-se: Não venham também médicos ou o que quer que seja dar opiniões "não técnicas" sobre os assuntos económicos.

Quanto a mim, este argumento sofre de vários vícios:

Em primeiro lugar põe em igualdade de carácter cientifico uma ciência como a medicina, física ou outra qualquer ciência natural e a Economia, esquecendo as características da Economia como Ciência Social.

Em segundo lugar, não é de todo verdade que os economistas ou outros não sejam chamados a pronunciar-se sobre outros assuntos. Veja-se o caso da Gripe A. "Toda a gente" foi chamada a pronunciar-se acerca da Gripe A. Lembro-me de António Vitorino na RTP ter cometido uma gaffe ao dar a sua opinião acerca da Gripe A que até motivou críticas que mais tarde foram discutidas no programa do Provedor do telespectador da RTP.

Hoje vemos no DN um artigo de um famoso economista português a dar também a sua opinião acerca da Gripe A. O que mais me choca é que João César das Neves é exactamente o tipo de economista capaz de fazer a crítica que enunciei acima neste texto. A crítica de César das Neves é direccionada ao desperdício resultante da distribuição em casas-de-banho públicas de cartazes explicando a forma correcta de lavar as mãos para evitar o contágio da Gripe A.

César das Neves não é médico, no entanto sabe exactamente que não vale a pena colocar cartazes. Gostava de ver também a sua opinião acerca da recomendação da Igreja em relação à comunhão na mão.

Mas felizmente, todos temos direito a pronunciar-nos, e é disto, em grande medida que é feita a liberdade. Espero continuar a ouvir médicos e serventes de pedreiro a pronunciarem-se sobre a crise porque são também estes que sofrem os seus efeitos. E aí está a caixa de pandora do assunto: As pessoas não falam de Economia porque é a Economia, falam daquilo que as afecta, que lhes diz respeito e que as preocupa. É por isso que toda a gente tem direito a falar na crise e toda a gente tem direito a falar na Gripe A. Talvez médicos e economistas tenham mais a aprender com o cidadão real.

13 de Agosto de 2009

Animais Teóricos Obsoletos (ATO): Relação Fixação do Salário

W = Pe F(u, z)
W – Salário nominal
Pe – Nível geral de preços esperado
u – Taxa de Desemprego
z – Variável compósita

W/P = F(u,z)

À luz desta "relação fixação do salário" como explicar esta disparidade?

As diferenças entre homens e mulheres, pelo contrário, dão sinais de uma muito lenta redução. A avaliar pelos dados do GEP, as mulheres ganham, em média, 906 euros brutos por mês, o equivalente a 76% do que ganham os homens.
Há mais trabalhadoras a receber o salário mínimo do que homens. Em Outubro, a proporção de abrangidas pelo ordenado mínimo subiu para 10,9%, contra 4,8% dos homens, dados que não contemplam a subida no início do ano.

De que forma é que este ATO explica estas desigualdades tão absurdas, inacreditáveis, medievais? Não deveria haver umas curvas de procura e oferta que se ajustavam e não sei quê...? Não deveria ser esta "relação fixação salarial" a equação que explicava a forma como os salários são estabelecidos? Então como é possível que metade da força de trabalho (masculina) receba 150% do que recebe a outra metade (feminina).

Pelo menos arranjem-nos lá nesses lindíssimos animais teóricos uma variável que absorva esta disparidade de género. Porque se não estamos perante outro ATO, daqueles em que a realidade desmente categoricamente a teoria dos manuais.

11 de Agosto de 2009

Nem me apetecia falar sobre isto, mas...

...vocês não ficaram com a impressão de perceber o porquê da tendência monárquica destes senhores quando viram o nome e a cara do líder do 31 da Armada na capa do Público?

Marx não diria melhor...

"Agora fala-se muito em taxar os ricos, mas os ricos não são as pessoas que pagam IRS. Os ganhos dos ricos são lucros e ganhos de capital. Estes genericamente estão isentos e os lucros pagam taxa liberatória de 20%. Ninguém fica rico a trabalhar. É-se rico quando se tem capital - e as remunerações do capital são menos taxadas ou pagam menos impostos que os rendimentos do trabalho."

Luis Campos e Cunha, I

10 de Agosto de 2009

Cada cabeça, sua sentença...

Relógio transparente

9 de Agosto de 2009

Opinião...

A pedido de alguém, deixo neste post a minha opinião sintética sobre dois temas da economia e política na actualidade:

Grandes obras públicas: sem dúvida que para mim a grande prioridade é o emprego, como afirma o manifesto dos 52. Mas isso não implica que não considere duvidosas algumas das obras programadas. Questiono-me essencialmente acerca da necessidade de uma terceira auto-estrada Lisboa-Porto. A minha critica ao manifesto dos 28 centra-se acima de tudo num aspecto diferente, ou seja, na forma como é vista a ciência económica e cada economista. A percepção de imparcialidade, a tentativa de apresentar um texto como "técnico", não dependente de ideologias políticas e por isso completamente fiável e confiável é para mim a amostra do que vai mal na ciência económica. Como diz alguém que muito prezo, as pessoas quanto mais estudam, menos sabem. Acho que os economistas deviam olhar para esta frase e descobrir que não são detentores de qualquer verdade absoluta, que são diferentes do médico e do engenheiro, são cientistas sociais, e não há modelo econométrico que consiga percepcionar toda a riqueza de uma sociedade.
O meu veredicto final: Não conhecendo os estudos que viabilizam as grandes obras, avaliando os prós e contras que conheço, parece-me importante não parar o país agora nesta altura. Precisamos de emprego e de melhores condições para a nossa indústria, transportes, etc... Não consigo confiar em nenhuma mente que se apresenta como iluminada com a descoberta da verdade.

Encíclica Caritas in Veritates: Acima de tudo esta Encíclica parece-me a explicação para algo que, acima de tudo, todos os Cristãos deviam ter presente. O Cristianismo não é compatível com uma teoria económica e uma economia baseada no interesse próprio, onde a concorrência feroz serve para penalizar os mais fracos e valorizar os mais fortes. O Papa diz-nos que todos nós somos Seres Humanos, iguais perante Deus. E quem é este Deus? É Caridade. E o que é a Caridade? É apenas uma tradução diferente para a mesma palavra: Amor. E que Caridade é esta? A Caridade na Verdade. Não é aquela Caridade beata que todos conhecemos. O Papa não incita à esmola. Incita à criação de uma nova sociedade e uma nova ordem social. Uma ordem Social antropocêntrica, onde o Homem é o Centro, ou seja, onde a economia deve estar ao serviço do Homem e não o contrário. Não pede esmolas, não vende indulgências, não pede sacrifícios e holocaustos, pede instituições que valorizem as pessoas, pede políticas sociais capazes de auxiliar os mais fracos, de lhes dar a dignidade a que têm direito. Valoriza o emprego, o fim da pobreza, a igualdade.
O meu veredicto: A Igreja mostra a sua face libertadora, a realmente útil e verdadeira face do Cristianismo. O Cristianismo, que tanta barbaridade somou ao longo de 20 séculos de existência, somou também a dos da perseguição, da destruição, das dificuldades. Mas a Igreja não esquece a sua face libertadora. Mostra que, para além da ideia assente de que o Homem só tem sentido com Deus, Deus também só tem sentido com o Homem. Que Jesus veio para servir e não para ser servido, e que serviu mesmo os imperfeitos e preguiçosos, que o "mercado", ou seja, o status quo da altura se encarregava de excluir. E a Igreja, que surgiu dos marginais e discriminados vira-se agora para os que sofrem com uma sociedade injusta. Oxalá esta Igreja continue por este caminho.

8 de Agosto de 2009

Soluções?

"Assim, temos necessidade de um mercado, no qual possam operar, livremente e em condições de igual oportunidade, empresas que persigam fins institucionais diversos. Ao lado da empresa privada orientada para o lucro e dos vários tipos de empresa pública, devem poder radicar-se e exprimir-se as organizações produtivas que perseguem fins mutualistas e sociais. Do seu recíproco confronto no mercado, pode-se esperar uma espécie de hibridização dos comportamentos de empresa e, consequentemente, uma atenção sensível à civilização da economia. Neste caso, caridade na verdade significa que é preciso dar forma e organização àquelas iniciativas económicas que, embora sem negar o lucro, pretendam ir mais além da lógica da troca de equivalentes e do lucro como fim em si mesmo."


Bento XVI, Caritas in Veritates

Quando se escreve sobre "ideias" sem ter nada para dizer ou... "esqueci-me que tinha de fazer uma crónica p'ra hoje e só faltam 20 minutos!"

Por acaso estou um bocadinho farto de ser chamado de estúpido, única e exclusivamente pela absoluta falta de criatividade na escolha de títulos para as crónicas que eu, eventualmente, acabo por ler.

Acaba, também, por ser ligeiramente confrangedor quando o cronista pensa que descobriu a pólvora (anunciando aos ventos com um portentoso ", estúpido!") e, afinal, vai se a ver não diz nada de muito interessante, nem nada de novo... Na verdade é bastante incomodo quando nos apercebemos que não há ali mesmo nada!...

É mais ou menos o que se passa neste artigo do meu novo cronista preferido, Pedro Lomba: um artigo sobre ideias.

Dizer que ideias são fixes, positivas e que um país como Portugal, sem outros recursos, tem que se desenvolver através delas é consensual, toda a gente diz, de Lomba até Louçã. Limitarmo-nos ao discurso vago e não avançar uma única ideia sobre como é que se propicíam objectivamente essas "ideias" é que é pior.

Gostaria imenso de ler Pedro Lomba sobre o modelo de desenvolvimento da economia portuguesa, assente em baixos salários (com os quais o poder político se conforma - ainda no outro dia foi louvada esta "qualidade" nacional por Manuel Pinho quando tentava atrair investimento Chinês), ao mesmo tempo que as propinas vão aumentam exponencialmente nas universidades públicas e o subfinanciamento público estrangula de tal forma as instituições que são os próprios reitores a queixarem-se ao ministro. De que forma é que estes factos, consequência das ideias liberais, favorecem a qualificação da nossa força de trabalho? Como é que uma universidade sem meios e excludente de grande parte da população pode promover ideias?

Ou então o que teria Pedro Lomba a dizer sobre a visão neo-liberal da universidade, que menospreza todas as outras funções da universidade perante a da empregabilidade. De que forma é que, com constrangimentos destes se pode promover a inovação ou o livre fervilhar das ideias? São criados sempre tantos mecanismos para que a universidade se adapte ao mercado de trabalho e nunca se inverte o sentido da questão, como propôs Rui Tavares há um tempo atrás no Público: deveria ser responsabilidade das empresas e dos empresários olhar para o que de bom sai das universidades e, a partir daí, criar valor. E não o contrário.

Não basta dizer que somos pelas ideias e que é preciso que elas surjam. É, como em quase tudo na vida, preciso criar as condições materiais e objectivas para que, de forma livre, democrática e em igualdade, todos possamos ter os mesmos meios para produzir ideias, pensamento, inovação. Uma economia que está assente em salários baixos e em exploração só faz com que todos os anos tantos e tantos licenciados, investigadores saíam do país. Uma democracia sem uma universidade pública de qualidade, é uma democracia menor, é uma democracia tolhida e sem ideias.

Tendo o privilégio de ser cronista num diário e de poder lançar questões para o debate público, Pedro Lomba devia ter mais cuidado cada vez que se lança num debate, sem a mínima capacidade de proposta e em moldes completamente abstratóides, ao mesmo tempo que alicerça a sua crónica num confiante ", estupido!" em titulo, que facilmente se pode virar contra ele...

7 de Agosto de 2009

O Papa e o Comércio Justo...

"é preciso que, no mercado, se abram espaços para actividades económicas realizadas por sujeitos que livremente escolhem configurar o próprio agir segundo princípios diversos do puro lucro, sem por isso renunciarem a produzir valor económico. As numerosas expressões de economia que tiveram origem em iniciativas religiosas e laicas demonstram que isto é concretamente possível."

Bento XVI, Caritas in Veritates

6 de Agosto de 2009

Uma ideologia? Qual ideologia?

"É verdade que o mercado pode ser orientado de modo negativo, não
porque isso esteja na sua natureza, mas porque uma certa ideologia pode dirigi-lo em tal sentido."

Bento XVI - Caritas in Veritates

Não é só na Economia...

"A troca de secreções entre os dois sexos, por conterem agentes antidepressivos, e uma maior intimidade, são alguns dos argumentos apresentados. Já um dos potenciais da investigação pode ser ajudar a explicar a elevada incidência de problemas mentais entre homossexuais, como têm vindo a demonstrar estudos recentes."

Por detrás de uma grande teoria científica está sempre uma grande teoria política...

5 de Agosto de 2009

Porque a Economia é acima de tudo Política...

A actividade económica não pode resolver todos os problemas sociais através da simples extensão da lógica mercantil. Esta há-de ter como finalidade a prossecução do bem comum, do qual se deve ocupar também e sobretudo a comunidade política. Por isso, tenha-se presente que é causa de graves desequilíbrios separar o agir económico - ao qual competiria apenas produzir riqueza - do agir político, cuja função seria buscar a justiça através da redistribuição.

Bento XVI

Será que não há mesmo almoços grátis?

"A gratuidade está presente na sua vida sob múltiplas formas, que frequentemente lhe passam despercebidas por causa duma visão meramente produtiva e utilitarista da existência."

In Bento XVI , encíclica Caritas in Veritates

1 de Agosto de 2009

Resposta a um Ladrão de Bicicletas

José Maria Castro Caldas (JMCC), bloguer do Ladrões de Bicicletas lançou há uns dias uma pergunta muito pertinente:

Na Faculdade de Economia da Universidade Católica lêem-se encíclicas papais?

Eu já lá estudei na Universidade Católica do Porto, sem ter terminado a licenciatura.

É, provávelmente, a faculdade de economia do país que tem os curricula mais adaptados às empresas, que menos enquadra os estudantes do ponto de vista da teoria economica que é ensinada, que menos enquandra históricamente os estudantes para entenderem o mundo em que vivem e a evolução dos sistemas economicos, que menor espaço dá a outras escolas economicas que não a neo-clássica.
E do ponto de vista da cultura da intsituição não se promove minimamente a reflexão critica, nem sequer o debate das ideias, grande parte dos professores chegam directamente das empresas para a sala de aula (a lógica que impera é: se apresenta resultados na empresa então tem necessariamente de ensinar o que faz bem. Que é, de resto, mais ou menos a mesma lógica daqueles cursos para aprender a jogar poker...). Os docentes apresentam, como não podia deixar de ser, grandes limitações quando tem que falar sobre algo mais do que está no powerpoint que prepararam...


Ironicamente, JMCC pergunta-se se na faculdade de economia da UCP já se leu a última enciclica papal sobre a economia, a desregulação dos mercados e a pobreza que deriva deste sistema economico e financeiro profundamente injusto.


A minha resposta à pergunta é não. Não se leêm enciclicas papais, muito menos as que não interessam. São dadas, de facto, missas na faculdade, o conservadorismo está muito presente, é uma escola de elites e para as elites, ensina-se o que interessa ao mercado prepetuando assim a estrutura social, as aulas são espaços sagrados de ideoligazação, e não existe a minima cultura democrática, portanto uma instituição muito do agrado da igreja católica...

No entanto, diria que a influência da igreja é bastante menor que a força dos grandes interesses economicos que penetram na Universidade. E a influência e as vozes da igreja católica na organização da Universidade Católica fazem-se sentir a um nivel estrutural demasiado elevado que não acaba por influênciar as matérias ensinadas ou a política de contratação de docentes contratados... Essas decisões são tomadas pelas pessoas que tem estado na direcção e que vêm directamente do meio empresarial.

E portanto o debate que o Papa tentou lançar, dificilmente chegará às salas de aula.

Pelo menos, é assim a realidade do pólo distrital da UCP-Porto.

31 de Julho de 2009

A direita que não sabe ser direita...

Manuela Ferreira Leite bem queria ser a Dama de Ferro portuguesa. Mas talvez só lhe consiga copiar mesmo o "look" e pouco mais.

Apresenta-se publicamente em defesa dos ricos (ver post anterior) com o mesmo à vontade e ousadia com que Margaret Tatcher propunha políticas fiscais regressivas. É, no entanto, desastrosa na leitura do tempo histórico que atravessamos, desastrosa a perceber a situação política e económica, e a partir dela pensar a sua intervenção e a do seu partido.

As ideias neo-liberais foram abaladas pela realidade, o "trickle-down economics" também, os banqueiros estão na mira da opinião pública, os escandalos sucedem-se e põem a nu as contradições do sistema capitalista e todos os subterfúgios para acumular, off-shores, esquemas piramidais Ponzi/Dona Branca/Madoff , contratos indecorosos entre o estado e empresas, falências fraudulentas, exploração crescente da força de trabalho, atingindo já os 900 mil precários em Portugal (o próprio órgão que devia controlar as condições de trabalho, a ACT, tem trabalhadores contratados a falsos recibos verdes).

No fundo, todas as consequências que naturalmente resultam da destruição do estado social que estabelecia um compromisso entre o capitalismo (exploração) e a democracia (igualdade). As consequências naturais da reconfiguração progressiva do Estado imprimida pela avalanche neo-liberal e pelas suas políticas.

Neste contexto, convenhamos, ligeiramente diferente dos anos 70 de Tatcher, em que as ideias neo-liberais não tinham sido postas à prova, vir defende os ricos será uma tarefa mais complicada.

Mas para quem já se atirou aos imigrantes, aos homossexuais e ao próprio sistema democratico, vir defender os ricos está muito bem. Embora politicamente desastroso, é um caminho bastante coerente.

É a direita que não sabe ser direita, é o PSD com tanto para aprender com o PS.

30 de Julho de 2009

Sem palavras...

“Mal vai o país se começa a olhar para os chamados ricos com olhos de menos consideração. Eu em relação aos ricos há apenas um sentimento que tenho e que é: tenho pena de não o ser. Fora disso, o país só progride, só todos têm vantagem que existam ricos. É bom que eles existam, é bom que dêem muitas festas, que comprem muitas coisas, porque isso dá postos de trabalho a dezenas de pessoas”

Daquelas coisas que já vi em algum lado...

"A confiança política podem retirar sempre, a técnica é que não."

29 de Julho de 2009

Vamos antes perseguir os pobres, estão mais habituados

Ferreira Leite contra "perseguição social dos ricos".

Os altos salários diminuem a competitividade

Claro. Os altos salários dos capitalistas, entenda-se. Já um grande economista do seu tempo dizia:
"Our merchants frequently complain of the high wages of British labour as the cause of their manufactures being undersold in foreign markets, but they are silent about the high profits of stock. They complain of the extravagant gain of other people, but they say nothing of their own. The high profits of British stock, however, may contribute towards raising the price of British manufactures in many cases as much, and in some perhaps more, than the high wages of British labour"
Quem terá sido o perigoso socialista que afirmou isto? A resposta é verdadeiramente surpreendente para quem sabe (ainda) apenas o que é ensinado nos cursos de economia e pode ser encontrada aqui.

Conferência sobre pobreza

Para assinalar o aniversário da morte da Prof. Leonor Vasconcelos, a FEP organiza uma conferência dedicada à pobreza em Portugal. Esta economista foi responsável, conjuntamente com o sociólogo Alfredo Bruto da Costa, por um estudo onde estimavam que 20% da população portuguesa era pobre. Numa altura em que se discute tão pouco questões como a pobreza e o desemprego nos cursos de economia, iniciativas como esta fazem falta.

Está tudo dito...



Obrigado aos Ladrões de Bicicletas por ressuscitarem esta pérola...

28 de Julho de 2009

Manuais tóxicos

A recente crise financeira, que inundou os mercados com activos tóxicos, demonstra que os ensinamentos dados nas faculdades de economia são desadequados e que os manuais de economia deveriam ser revistos. Esta é a conclusão de uma campanha chamada Toxic Textbooks, criada por economistas heterodoxos. Com um certo dramatismo, alerta-se para a necessidade de mudar a forma como a economia é ensinada como pré-requisito para evitar crises futuras. Um debate interessante ao qual nos podemos juntar via facebook.

23 de Julho de 2009

Uma visão não-ortodoxa da crise

A Real-World Economics Review colocou on-line um e-book gratuito com textos de economistas sobre a crise. O livro inclui várias pérolas, como o texto de Dean Baker que previa esta crise em 2002 e pode ser descarregado aqui.

22 de Julho de 2009

O que está em jogo

Na sequência do debate que vai surgindo devido à divulgação dos últimos dados acerca do défice das contas públicas, penso ser de interesse sintetizar as divergências entre os diversos grupos em conflito.

Para os leigos na matéria, o défice das contas públicas é apenas e só a diferença entre as receitas do Estado e as despesas. Se falamos em défice estamos já a supor que as despesas superam as receitas. As receitas são essencialmente vindas dos impostos, as despesas vêm dos gastos com o sector público e transferências para privados (particulares ou empresas), sob a forma de subsidios de desemprego, por exemplo.

Ora, num período de crise, em que o desemprego aumenta e o produto diminui, é óbvio que as receitas com impostos diminuem, já que estes estão directamente ligados ao produto da economia (impostos sobre rendimentos ou sobre consumo, por exemplo), e por outro lado, as transferências para o sector privado aumentam, por exemplo, com o aumento das pessoas a receber o subsídio de desemprego. Isto é consensual, acontece sempre e chamam-se estabilizadores automáticos. Daí que o aumento do défice para os 7300 milhões de euros, não seja algo que não se esperasse, embora para alguns seja preocupante.

Agora vêm as divergências:

O Produto de uma economia é medido, na óptica da despesa como: Produto = Consumo privado + Investimento + Gastos do Estado + Exportações líquidas.

Para tentar combater a crise, ou seja, fazer crescer o produto, o Estado pode esperar que o consumo privado, o investimento ou as exportações líquidas aumentem sozinhas, o que não parece muito credível. O consumo privado e o investimento sofrem com a falta de confiança de todo o sector privado, as exportações sofrem com a crise que afecta praticamente todos os países.

O Estado tem de actuar e, para uns deve actuar de uma forma passiva, ou seja: um diminuição dos impostos libertaria os sector privado de pesados encargos, esperando assim que as empresas começassem a investir e os consumidores a consumir, já que os impostos são variáveis negativamente relacionadas com o consumo ou o investimento.

Por outro lado, acha-se que o Estado deve intervir aumentando os seus gastos, ou seja, a única rubrica do Produto onde o Estado pode intervir directamente. Ao aumentar os seus gastos o Estado provocará imediatamente um efeito multiplicador sobre a economia, que levará a um aumento do emprego e da confiança dos agentes económicos.

O que está em jogo é antes de tudo uma visão da economia: para uns o Estado deve ter um papel passivo e afastar-se ainda mais da economia, para outros é altura do Estado intervir fortemente. No fim de contas é um problema de saber qual das medidas (qualquer uma teria efeito no défice) terá um efeito multiplicador maior sobre o produto, ou seja, qual das medidas levaria mais eficazmente a um aumento do Produto da economia.

Assim está mais ou menos explicada questão que vai envolvendo as dúvidas na economia portuguesa, mas a resposta às dúvidas ainda não existe.

Fico à espera de ver o que dizem os verdadeiros intervenientes no debate...

21 de Julho de 2009

A gestão por objectivos e os Incentivos

Bruno Frey apresenta-nos um modelo de reacção aos incentivos por parte dos indivíduos bastante diferente do que diz a teoria económica Neoclássica. Uma das áreas onde os trabalhos de Frey têm incidência é a da Gestão, ou seja, como motivar os trabalhadores (agora tratados por colaboradores, algo que a teoria de Frey também pode explicar) para induzir um aumento na oferta de uma empresa. O que nos diz a teoria é que um aumento nos incentivos (preço, ou no caso do trabalho, ordenado) leva invariavelmente a um aumento da oferta.

Ora, o que nos explica Frey, baseado na Psicologia Experimental é que esta relação esperada pela teoria neoclássica não é assim tão linear. Sob certas condições é de esperar que, por exemplo, um aumento dos incentivos possa diminuir a oferta. E isto acontece pela introdução de uma nova variável, a motivação intrinseca.

A explicação é que, um aumento dos incentivos (motivação extrínseca) podem, sob certas condições, provocar um efeito Crowding Out da motivação intrínseca e no resultado das duas levar a uma diminuição da oferta.

A aplicação à gestão por incentivos é algo que a disciplina da Gestão já percebeu mas que a Economia teima em não dar importância, ou seja, toda uma política de gestão levada para a ideia de bem-estar dos colaboradores (colaboradores para dar a ideia de companheirismo e pertença a um projecto comum) assenta na ideia de impedir que ocorra o efeito Crowding-Out previsto por Frey, aumentando a motivação intrínseca. A actividade desenvolvida, a participação, o grau de autonomia e a força das relações interpessoais são exactamente aspectos que Frey mostra serem potenciadores da motivação intrínseca.

A tentativa de domar a motivação intrínseca tem outro motivo para além de evitar o Crowding Out, ou seja, o de possibilitar o efeito inverso, o Crowding In.

O efeito Crowding In é a hipótese de um aumento dos incentivos levar a um incremento da motivação intrinseca, e aqui vemos os incentivos dados como prémios pela boa performance profissional. A fixação de objectivos nas empresas é um exemplo claro disto: dar um incentivo ao trabalhador, que sob a forma de prémio, tem a potencialidade de aumentar a auto estima e assim provocar o Crowding In.

14 de Julho de 2009

O livre mercado e o mercado de frescos

No Porto, a Câmara pretende privatizar o Mercado do Bom Sucesso, transformando-o num hotel com mini-shopping. O anúncio vem depois de ter falhado a privatização do Mercado do Bolhão, o qual escapou ao destino de ser transformado num centro comercial por intervenção do IGESPAR.
Estes dois episódios mostram como funciona a política autárquica em tantas cidades. Segue-se uma política urbanística que leva os jovens a saírem do centro para irem morar para a periferia, promove-se a criação de mais e mais grandes superfícies comerciais, desinveste-se na reabilitação das zonas de comércio de proximidade, chega-se mesmo ao ponto de destruir mercados municipais, tudo em nome do progresso. Depois, quando chegamos à conclusão de que as lojas e os mercados estão desertos e que os clientes fugiram para as grandes superfícies, lá vêm os responsáveis por este crime dizer-nos que é o livre mercado a funcionar. Como se em vez da mão invisível do mercado não tivéssemos a mão visível do autarca a destruir o que resta do comércio de proximidade.
Entretanto, já assinei a petição contra o fim do Bom Sucesso.

Se ela tem a solução para a crise não sei...mas até gostei do que li...


"Esta crise terminará a curto ou longo-prazo? Uns falam que será em V, outros em W?


Dizem que vai ser um V, ou um W, porque consideram que é uma crise comum que se ataca com políticas típicas. Se apenas estivermos dedicados a curar o sistema financeiro não vamos ter um W, mas sim sete dromedários seguidos. Subida, queda, subida, queda e cada vez pior, até que se perceba que as mudanças necessárias não são só financeiras. São muito mais abrangentes: um Bretton Woods mais o Welfare State. Não podemos ter uma economia próspera sem que as decisões de investimento passem para o capital produtivo. Uma empresa que hoje queira investir a três ou quatro anos não consegue. Porquê? Porque a bolsa exige-lhe que a cada três meses tenha mais lucros.

(...)

Em Portugal discutem-se os investimentos em grandes infra-estruturas. Há quem os defenda e quem defenda investimentos divididos por vários pequenos projectos. Qual a prioridade?

Se realmente só há uma dada quantia de dinheiro, a decisão não é fácil. A razão para investir em grandes infra-estruturas é criar emprego para aqueles que perderam emprego com a crise. E isso não acontecerá com pequenos projectos. Não se esqueça que estamos no tempo da terapia intensiva, em que a prioridade é salvar o doente."

Ver o resto da entrevista a Carlota Perez aqui.

13 de Julho de 2009

Resumo das divergências:

"Para o manifesto dos 28, a ciência económica não é uma ciência social; é um conjunto de teorias e técnicas neutras a que os cidadãos devem obediência."

"para o manifesto dos 52, a economia está ao serviço dos cidadãos e não estes ao serviço dela."

O artigo completo de Boaventura de Sousa Santos pode ser lido aqui.